Trovadorismo

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Um pequeno apanhado sobre o trovadorismo

N­­­­­a Idade Média, entre os séculos XI e XII, ao lado do período de formação de Portugal, ocorrem também as primeiras manifestações literárias por meio das poesias musicadas, chamadas de cantigas. Essa composição trovadoresca era escrita em galego-português, idioma falado nesse período tanto em Portugal como na Galícia.

O cenário político-econômico era o Feudalismo, organizado a partir de uma estrutura rígida entre o senhor feudal (dono de terras), chamado de suserano, e seus vassalos, que, em troca de proteção, eram responsáveis por cuidar desse pedaço territorial chamada feudo.

Outra força social fundamental era a igreja, forte pilar de uma sociedade teocêntrica, responsável por divulgar os valores morais cristãos e consequentemente de determinar os textos a serem divulgados. Além disso, a igreja também era ideologicamente responsável pelas Cruzadas, expedições cujo principal objetivo era a libertação dos lugares considerados santos na Palestina.

Todas essas relações políticas, econômicas e religiosas se refletem também nas manifestações culturais do trovadorismo, conforme veremos a seguir.

Controle da igreja com relação à educação na Idade Média
Imagem que representa o controle da igreja com relação à educação na Idade Média

O contexto cultural: Trovadorismo

Em Portugal, o poeta era chamado de trovador; assim como na região da Provença o poeta era o troubador e no norte da França era identificado como trouvèrenomes que simbolizam aquele que acha seu cantar, sua arte, sua cantiga. Todos esses termos darão origem a Trovadorismo. E o poeta será o trovador, aquele que faz as trovas, ou seja, produz versos, além de compor as melodias de suas cantigas. Existiam diversos tipos de trovadores, como menestrel, jogral, segrel, diferenciados em especial pela posição econômico-social que ocupavam.

O Trovadorismo será, então, a primeira escola literária portuguesa e trará nos seus temas e na sua organização os reflexos das questões políticas, econômicas e religiosas do Feudalismo.

Originária da tradição oral, essas poesias trovadorescas ficaram conhecidas como cantigas, pois foram escritas para serem acompanhadas tanto por instrumentos musicais como pela dança. Seus registros foram preservados porque, embora tardiamente, as cantigas foram copiadas em coletâneas, como o Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca nacional.

Neste último, o primeiro texto é um artigo intitulado “Arte de trovar”, que apresenta didaticamente os princípios e as regras da poesia trovadoresca, bem como define os diferentes tipos de cantigas, divididas em duas espécies: lírico-amorosas e satíricas.

Cantigas lírico-amorosas

Divididas em cantigas de amor e cantigas de amigo, ambas apresentam como tema central o amor.

O trovador, nas cantigas de amor, reproduz as relações feudais, em que o eu poético, representado por uma voz masculina, sofre pela mulher amada (dama), mostrando-se totalmente subordinado, ou seja, um verdadeiro vassalo diante da sua suserana. É interessante ressaltar que, na prática social, a mulher não era tratada a partir dessa posição de superioridade, mas, ao contrário, de forma subordinada. No entanto, nas trovas ocorre o oposto e o eu poético, diante de uma contemplação platônica, suplica pelo amor inatingível da sua senhora, vivendo um eterno sofrimento amoroso.

Canção de amor (trecho)
Diniz

Ca mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad’e loor
e falar mui bem, e riir melhor
que outra molher; desi é leal
muit’, e por esto nom sei oj’eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom á, tra-lo seu bem, al.

Tradução:

Porque em minha senhora nunca Deus pôs mal,
mas pôs nela honra e beleza e mérito
e capacidade de falar bem, e de rir melhor
que outra mulher também é muito leal
e por isto não sei hoje quem
possa cabalmente falar no seu próprio bem
pois não há outro bem, para além do seu.

No exemplo anterior, é possível notar a superioridade da sua senhora, comprovada a partir de uma série de comparações e da conclusão de que não há outra igual a ela.

Já as cantigas de amigo, embora tratem também de relações amorosas, apresentam diversas particularidades. Em primeiro lugar, embora a poesia seja escrita por um trovador, a voz do eu poético é feminina. Sobre essa questão, o escritor Massaud Móises, em seu livro A literatura portuguesa, afirma: “essa capacidade de projetar-se na interlocutora do episódio e exprimir-lhe o sentimento (…) não existia antes do trovadorismo”.

Sobre o enredo, a história centra-se em uma mulher simples (e não mais uma representante da nobreza, como na cantiga de amor) que foi abandonada por seu amigo, que vai lutar na guerra ou troca de amante. Amigo, nessas poesias, é entendido como namorado e amante (Seria uma amizade colorida?). Sofrendo, essa voz feminina desabafa com sua mãe, com suas amigas, ou mesmo com as forças da natureza, em geral relacionadas às águas, fonte de fertilidade. Assim, na cantiga a seguir, a mulher dialoga com “as ondas do mar de Vigo”.

Martim Codax
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
e ai Deus, se verrá cedo?

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
e ai Deus, se verrá cedo?

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
e ai Deus, se verrá cedo?

Se vistes meu amado,
o por que hei gram coidado?
e ai Deus, se verrá cedo?

Tradução
Ondas do mar de Vigo
acaso vistes meu Amigo ?
Queira Deus que ele venha cedo!

Ondas do mar agitado,
acaso vistes meu amado?
Queira Deus que ele venha cedo!

Acaso vistes meu amigo,
aquele por quem suspiro?
Queira Deus que ele venha cedo!

Acaso vistes meu amado,
por quem tenho grande cuidado ?
Queira Deus que ele venha cedo!

Como é possível observar, trata-se de um autor que de fato dá voz a uma personagem feminina e seus anseios à espera do amante. Essa mulher simples passeia junto ao mar, com quem dialoga, suplicando insistentemente a Deus para que seu amante retorne cedo.

Cantigas satíricas

Seu  objetivo principal é produzir uma crítica a partir de acontecimentos do dia a dia daquela época. Se a crítica era feita de forma indireta, por meio de ironia e, em especial, de ambiguidades de sentido, trata-se de uma cantiga de escárnio.

Exemplo de cantiga satírica
Exemplo de cantiga satírica

 

Joao Garcia Guilharde
Ai, dona fea! Foste-vos queixar
que vos nunca louv’en meu trobar;
mas ora quero fazer um cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!

Ai, dona fea! Se Deus me pardon!
pois avedes [a] tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!

Tradução
Ai, senhora feia, foste-vos queixar
porque nunca vos louvo em minhas cantigas
mas agora quero fazer um cantar
em que vos louvarei, todavia;
e vede como vos quero louvar:
senhora feia, velha e louca.!

Senhora feia, assim Deus me perdoe,
pois tendes tão bom coração
que eu vos louvo, e por esta razão
eu vos quero louvar, todavia;
e vede qual será a louvação:
senhora feia, velha e louca!

Senhora feia, eu nunca vos louvei
em meu trovar, mas muito já trovei;
entretanto, farei agora um bom cantar
em que eu todavia vos louvarei:
e vos direi como louvarei:
senhora feia, velha e louca!

Nesse exemplo, o eu poético ocupa o espaço do trovador a quem uma mulher pediu uma poesia em sua homenagem, provavelmente uma cantiga de amor. No entanto, esse pedido é compreendido pelo artista como um abuso, por isso, em vez do sofrimento amoroso, o poeta escreve uma cantiga de escárnio, depreciando a mulher, apontando que, para ela, a única poesia possível é aquela que expõe como ela é feia e até maluca, por se achar merecedora de um texto de amor.

Se você achou que a cantiga anterior pegou pesado, espere até ler uma cantiga de maldizer, que baseia sua crítica em uma sátira direta, agressiva, que pode apresentar até mesmo palavras de baixo calão. Se a cantiga de escárnio não aponta o nome da vítima do autor, a de maldizer, em alguns exemplos, escreve mesmo o nome da pessoa a quem se refere. Seria como se hoje você publicasse uma direta nas redes sociais e ainda marcasse o alvo da sua crítica na publicação.

Isto acontece na cantiga de maldizer de Fernão Velho, pois o trovador revela o nome do alvo de sua crítica. Trata-se de Maria Balteira, que havia sido dona de mosteiro e era conhecida por dançar enquanto os jograis cantavam suas trovas.

Maria Pérez se maenfestou
noutro dia, ca por [mui] pecador
se sentiu, e log’a Nostro Senhor
pormeteu, polo mal em que andou,
que tevess’um clérig’a seu poder,
polos pecados que lhi faz fazer
o Demo, com que x’ela sempr’andou.

Tradução
Maria Peres se confessou
noutro dia, pois pecadora
se sentiu, e log’ a Nosso Senhor
prometeu, pelo mal em que andou,
pois tinha um clérigo em seu poder
pelos pecados que lhe faz fazer
o demônio, com quem sempre andou

Novela de cavalaria

O Trovadorismo não se reduz às cantigas, mas também é representado pela prosa épica através dos romances de cavalaria. Esse tipo de narrativa não se limita ao período trovadoresco, pois sua produção continua até o século XVI. As novelas de cavalaria representam os ideais da Idade Média, estabelecendo uma ponte entre os valores do Feudalismo e o misticismo religioso. Assim, os personagens centrais são cavaleiros que, cultuando a honra e a moral acima de tudo, buscam o reconhecimento social através de sua coragem para enfrentar a morte, de proteger os fracos, de seguir os padrões do amor cortês e respeitoso, além de serem pilares da espiritualidade. A principal obra de Amadis de Gaula.

Os estudos atuais

Há alguns anos já se observa a tentativa de recuperar a característica musical das cantigas trovadorescas. Uma das principais pesquisas, com impressionante acervo de canções, imagens de folhas originais dos cancioneiros e reproduções musicais de diversas cantigas é o site português “Cantigas Medievais Galego-Portuguesas”. Nele você tem acesso a diferentes versões de melodias para uma mesma cantiga. Do instrumental ao musicado, você é convidado a uma verdadeira viagem no tempo.

http://cantigas.fcsh.unl.pt/index.asp

A literatura de cordel: um elo com o Trovadorismo

No período da colonização, nossa relação com a Europa é mediada através de Portugal. Assim, os colonizadores trazem nas caravelas a tradição de cantar histórias, apresentando tanto as cantigas como os contos orais portugueses. Por toda a Europa, ampliadas pela imaginação popular e registradas em folhas soltas, as cantigas medievais, pouco a pouco, deixam herança para uma nova manifestação poética. Na França, era Littèrature de Colportage; na Espanha, Pliegos Sueltos; em Portugal, de Folhas Volantes e, no Brasil, a Literatura de Cordel.

Em nosso país, diversas narrativas europeias, em especial portuguesas – como as aventuras de João Grilo – adaptam-se a nossa cor local. Os folhetos, pendurados em uma corda e vendidos em feiras, tornam-se uma importante manifestação nacional, que até hoje cresce, em especial estimulada pelo interesse de turistas no Nordeste do Brasil, região em que o Cordel é mais popular.

Proezas de João Grilo
Proezas de João Grilo
 

O trovadorismo no Vestibular

QUESTÃO: (EsPCEx – 2013)

É correto afirmar sobre o Trovadorismo que

  • os poemas são produzidos para ser encenados.
  • as cantigas de escárnio e maldizer têm temáticas amorosas.
  • nas cantigas de amigo, o eu lírico é sempre feminino.
  • as cantigas de amigo têm estrutura poética complicada.
  • as cantigas de amor são de origem nitidamente popular.

Resposta comentada
No Trovadorismo, os poemas eram chamados de cantigas, ou seja, eram poesias musicadas, e não encenadas. As trovas eram acompanhadas de instrumentos musicais e, ao redor, as mulheres dançavam. As cantigas amorosas eram chamadas de cantiga de amor e de amigo; enquanto as de escárnio e maldizer são críticas muitas vezes cruéis e com palavrões. Nenhuma cantiga apresentada estrutura complicada porque se tratava de manifestações populares, de formas poéticas que facilitavam a memorização, em especial por meio do refrão. Além disso, os trovadores eram de origem nobre, bem como a amada da cantiga de amor. Já as cantigas de amigo apresentavam a voz de uma mulher simples. A resposta correta é, portanto, a letra C.

Bianca Karam
Doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Professora da Fundação Osório

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