FILOSOFIA MEDIEVAL: SANTO AGOSTINHO

Aprenda sobre a Relação entre a Filosofia e o Cristianismo.
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A religião cristã teve contato com a filosofia no século II da nossa era, assim que houve convertidos da cultura grega. Poderíamos remontar a ainda mais cedo e procurar quais noções de origem filosófica se encontram nos livros do Novo Testamento, no Quarto Evangelho e nas Epístolas de são Paulo, por exemplo. Essas pesquisas têm a sua importância, muito embora os que a ela se dediquem estejam expostos a muitos erros de perspectiva. O cristianismo é uma religião; empregando por vezes termos filosóficos para exprimir sua fé, os escritores sacros cediam a uma necessidade humana, mas substituíam o sentido filosófico antigo desses termos por um sentido religioso novo. É nesse sentido que lhes devemos atribuir, quando os encontramos nos livros cristãos.

Reduzida ao essencial, a religião cristã se baseava, desde o seu início, no ensinamento dos Evangelhos, isto é, na fé na pessoa e na doutrina de Jesus Cristo. Os Evangelhos de Mateus, Lucas e Marcos anunciam ao mundo uma boa nova. Um homem nasceu em circunstâncias maravilhosas; ele tinha por nome Jesus; ensinou que era o Messias anunciado pelos profetas de Israel, o Filho de Deus, e provou-o por meio de milagres. Esse Jesus prometeu a vinda do reino de Deus para todos os que se prepararão para ela observando seus mandamentos: o amor ao Pai que está no Céu; o amor mútuo entre os homens, desde então irmãos em Jesus Cristo e filhos do mesmo Pai; a penitência dos pecados, a renúncia ao mundo e a tudo o que é mundano, por amor ao Pai acima de todas as coisas. O mesmo Jesus morreu na cruz para redimir os homens; sua ressurreição provou sua divindade, e ele virá de novo, no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos e reinar com os eleitos em seu Reino. Não há uma só palavra de filosofia nisso tudo.

O cristianismo se dirige ao homem, para aliviá-lo de sua miséria, mostrando-lhe qual a sua causa e oferecendo-lhe remédio para ela. É uma doutrina da salvação, e é por isso que é uma religião. A filosofia é um saber que se dirige à inteligência e lhe diz o que são as coisas; a religião se dirige ao homem e lhe fala de seu destino, seja para que se submeta a ele, como no caso da religião grega, seja para que o faça, como no caso da religião cristã. É por isso, aliás, que, influenciadas pela religião grega, as filosofias gregas são filosofias da necessidade, ao passo que as filosofias influenciadas pela religião cristã serão filosofias da liberdade.

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Eu quero

(GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. Tradução de: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1998, pág. 16. )

Chama-se literatura patrística, em sentido lato, ao conjunto das obras cristãs que datam da idade dos padres da Igreja; mas nem todas têm como autores os padres, e esse título mesmo não é rigorosamente preciso. Num primeiro sentido, ele designa todos os escritores eclesiásticos antigos, mortos na fé cristã e na comunhão da Igreja; em sentido estrito, um padre (ou pai) da Igreja deve apresentar quatro características: ortodoxia doutrinal, santidade de vida, aprovação da Igreja, relativa antiguidade (até fins do século III aproximadamente).

TEXTOS COMPLEMENTARES:

TEXTO I

A filosofia só aparece na história do cristianismo no momento em que certos cristãos tomam posição em relação a ela, seja para condená-la, seja para absorvê- la na nova religião, seja para utilizá-la em função da apologética cristã. O termo “filosofia” apresenta, desde essa época, o sentido de “sabedoria pagã”, que conservará durante séculos. Mesmo nos séculos XII e XIII, os termos philosophi e sancti significarão diretamente a oposição entre as concepções do mundo elaboradas por homens privados das luzes da fé e as dos Padres da Igreja falando em nome da revelação cristã. Não é menos verdade que o cristianismo teve bem cedo de levar em consideração as filosofias pagãs e que, segundo seus temperamentos pessoais, os cristãos cultos dos primeiros séculos adotaram atitudes bastante diferentes em relação a elas. Alguns deles, que só se converteram ao cristianismo bastante tarde e depois de terem recebido uma educação filosófica grega, eram ainda menos inclinados a condená-la em bloco pelo fato de sua própria conversão se lhes apresentar antes como a peripécia final de uma busca de Deus começada por eles com os filósofos. Por um efeito de perspectiva inevitável, os pensadores pagãos dos séculos passados apareciam-lhes como já trilhando o caminho cujo termo o cristianismo enfim acabava de revelar. Outros, ao contrário, que nenhuma necessidade especulativa inclinava às pesquisas filosóficas, adotavam uma atitude resolutamente negativa em presença de doutrinas que não despertavam nenhum interesse neles.

(GILSON, Etienne. op. cit.)

SANTO AGOSTINHO

Um dos principais representantes da Patrística é Agostinho de Hipona, nascido em Hipona, no norte da África, em 354, filho de pai pagão e mãe cristã. Estudou várias correntes filosóficas de seu tempo, como o neoplatonismo e o maniqueismo. Converteu-se ao cristianismo já adulto; defendeu com argumentação vigorosa a ortodoxia cristã de várias heresias; tornou-se bispo da Igreja. Sua obra contém elementos da filosofia helênica, como a argumentação racional sobre conceitos, o uso de noções platônicas e aristotélicas, a busca pela verdade sobre a realidade para melhor guiar as ações individuais. Porém, sua filosofia também possui elementos do cristianismo, como a centralidade da ideia de Deus, a busca pela compreensão de conceitos cristãos como a Trindade, a problematização da relação entre a fé e a razão.

Agostinho morreu em 430. Sua filosofia influenciou profundamente não apenas o pensamento teórico posterior, mas toda a cristandade e, por consequência, toda a Europa. Por ter estudado várias filosofias gregas, Agostinho utilizou a argumentação filosófica para defender as ideias cristãs; afirma (no Sermão 43) que é necessário “compreender para crer, crer para compreender”. Assim, ele procura conformar o pensamento filosófico ao cristianismo. No trecho de Confissões reproduzido a seguir, essa adequação é pressuposta. Note que Agostinho aborda os problemas religiosos utilizando-se de uma argumentação tipicamente filosófica.

TEXTO II

Eis a minha resposta a quem diz: Que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra? Não lhe dou aquela resposta que alguém, segundo se diz, terá dado, iludindo com graça a violência da pergunta. Preparava, disse, a geena para aqueles que perscrutam questões tão profundas. Uma coisa é ver, outra coisa é rir. Esta não é a minha resposta. Preferiria responder: ‘‘Não sei o que não sei’’, em vez de dar uma resposta que pusesse a ridículo quem formulou questão tão profunda e gabasse quem respondeu erradamente. Mas eu afirmo, ó nosso Deus, que tu és o criador de toda a criatura e, se sob a designação de ‘‘céu e terra’’ se entende toda a criatura, não hesito em afirmar: ‘‘Antes de Deus fazer o céu e a terra, não fazia coisa alguma’’. Com efeito, se fazia alguma coisa, que coisa fazia senão a criatura? E oxalá assim eu possa saber tudo aquilo que, utilmente, desejo saber, tal como sei que não estava criada nenhuma criatura antes de ser criada alguma criatura.

Mas se algum sentido volúvel vagueia pelas imagens dos tempos anteriores à criação e se admira de que tu, Deus onipotente, e criador e sustentáculo de todas as coisas, artífice do céu e da terra, durante inumeráveis séculos te abstiveste de tão grande obra, antes de a fazeres, ele que desperte e repare que se admira de coisas falsas. Com efeito, como podiam ter passado inumeráveis séculos, que tu próprio não tinhas feito, sendo tu o autor e criador de todos os séculos? Ou que tempos teriam existido que não tivessem sido criados por ti? Ou como podiam ter passado se nunca tivessem existido? Sendo tu o obreiro de todos os tempos, se existiu algum tempo antes de fazeres o céu e a terra, por que motivo se diz que tu te abstinhas de agir? De fato, tu tinhas feito o próprio tempo, e os tempos não puderam passar, antes de tu fazeres os tempos. Se, no entanto, não existia nenhum tempo antes do céu e da terra, por que razão se pergunta o que fazias então? Na realidade, não havia ‘então’, quando não havia tempo.

E tu não precedes os tempos com o tempo: se assim fosse, não precederias todos os tempos. Mas precedes todos os pretéritos com a grandeza da tua eternidade sempre presente, e superas todos os futuros porque eles são futuros, e quando eles chegarem, serão pretéritos; tu, porém, és o mesmo e os teus anos não têm fim. Os teus anos não vão nem vêm: os nossos vão e vêm, para que todos venham. Os teus anos existem todos ao mesmo tempo, porque não passam, e os que vão não são excluídos pelos que vêm, porque não passam: enquanto os nossos só existirão todos, quando todos não existirem. Os teus anos são um só dia, e o teu dia não é todos os dias, mas um ‘‘hoje’’, porque o teu dia de hoje não antecede o de amanhã; pois não sucede ao de ontem. O teu hoje é a eternidade: por isso, geraste coeterno contigo aquele a quem disseste: Eu hoje te gerei. Tu fizeste todos os tempos e tu és antes de todos os tempos, e não houve tempo algum em que não havia tempo.Não houve, pois, tempo algum em que não tivesses feito alguma coisa, porque tinhas feito o próprio tempo. E nenhuns tempos te são coeternos, porque tu permaneces o mesmo; ora, se os tempos permanecessem os mesmos, não seriam tempos.

Não houve, pois, tempo algum em que não tivesses feito alguma coisa, porque tinhas feito o próprio tempo. E nenhuns tempos te são coeternos, porque tu permaneces o mesmo; ora, se os tempos permanecessem os mesmos, não seriam tempos. Que é, pois, o tempo? Quem o poderá explicar facilmente e com brevidade? Quem poderá apreendê-lo, mesmo com o pensamento, para proferir uma palavra acerca dele? Que realidade mais familiar e conhecida do que o tempo evocamos na nossa conversação? E quando falamos dele, sem dúvida compreendemos, e também compreendemos, quando ouvimos alguém falar dele. O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela porque não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?

Permite-me, Senhor, ir mais longe na minha procura, ó minha esperança; e não se distraia a minha atenção. Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas se isso ainda não me é possível, sei, todavia, que onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. Na verdade, se também aí são futuras, ainda lá não estão, e se também aí são passadas, já lá não estão. Por conseguinte, onde quer que estejam e quaisquer que sejam, não existem senão como presentes. Ainda que se narrem, como verdadeiras, coisas passadas, o que se vai buscar à memória não são as próprias coisas que já passaram, mas as palavras concebidas a partir das imagens de tais coisas, que, ao passarem pelos sentidos, gravaram na alma como que uma espécie de pegadas. Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. Se é semelhante a explicação também da predição do futuro, de tal forma que sejam tornadas presentes, como já existentes, as imagens das coisas que ainda não existem, confesso-te, meu Deus, que não sei. Há uma coisa que eu sei: a maior parte das vezes, nós premeditamos as nossas ações futuras e essa premeditação é presente, ao passo que a ação que premeditamos ainda não existe, porque é futura; quando a empreendermos e começarmos a realizar aquilo que premeditávamos, então essa ação existirá, porque então já não será futura, mas presente.

Assim, qualquer que seja a natureza deste misterioso pressentimento do futuro, não se pode ver senão o que existe. Ora, o que já existe não é futuro, mas presente. Por isso, quando se diz que se veem coisas futuras, não se vêem essas mesmas coisas, que ainda não existem, ou seja, que hão de existir, mas sim as suas causas ou, talvez, os seus sinais; estes já existem: por isso, não são futuros, mas já presentes para os que os veem, e, a partir deles, são preditas as coisas futuras concebidas no espírito.

As imagens dessas coisas, por sua vez, já existem, e veem-nas como presentes, dentro de si, aqueles que predizem tais coisas. Ofereça-me um exemplo a imensa variedade das coisas. Contemplo a aurora: preanuncio que o sol vai nascer. O que vejo é presente, o que preanuncio é futuro: não é o sol, que já existe, que é futuro, mas sim o seu nascimento, que ainda não existe: todavia, mesmo o próprio nascimento, se não o imaginasse no meu espírito, como agora quando estou a falar dele, não o poderia predizer. Mas aquela aurora que vejo no céu não é o nascimento do sol, embora o preceda, nem aquela imagem que está no meu espírito: ambas são vistas claramente como presentes, a ponto de se poder dizer antecipadamente aquele futuro. Portanto, as coisas futuras ainda não existem e, se ainda não existem, não existem, e, se não existem, não podem ser vistas de forma alguma; mas podem ser preditas a partir das coisas presentes, que já existem e se veem.

Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se. Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer.

(Agostinho. Confissões)

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