INTRODUÇÃO A TEORIA KANTIANA

A resposta de Kant aos problemas gerados pela controvérsia entre o racionalismo e o empirismo mudou a face da filosofia. Em primeiro lugar, Kant defendeu que a velha divisão entre as verdades a priori e as verdades a posteriori empregadas por ambos os campos era insuficiente para descrever a sorte de afirmações metafísicas que estavam sob disputa. Uma análise do conhecimento também requer uma distinção entre verdades analíticas e verdades sintéticas.

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Em uma proposição analítica, o predicado está contido no sujeito. Na proposição “Todo corpo ocupa um espaço”, a propriedade de ocupar um espaço é revelada na análise do que significa ser um corpo. O sujeito de uma proposição sintética, todavia, não contém o predicado. Em “esta árvore mede 30 metros”, os conceitos são sintetizados ou unidos para formar uma nova proposição que não está contida em qualquer dos conceitos individuais. Os empiristas e os racionalistas não conseguiram provar proposições sintéticas a priori como “cada evento deve possuir uma causa” porque consideraram que “sintético” e a posteriori significavam a mesma coisa, e que “analítico” e a priori também não tinham diferença.

Então, assumiram que bastava falar de a posteriori e a priori. Uma proposição sintética a priori, argumenta Kant, é uma proposição que deve ser verdadeira sem ser necessário apelar à experiência, ainda que o predicado não esteja logicamente contido no sujeito. Como proposições sintéticas a priori são possíveis, como no caso de “O eu é uma substância simples”, dado que “sintético” não é a mesma coisa que a posteriori e que “analítico” não é o mesmo que a priori, não há surpresa no fato de que os empiristas e os racionalistas tenham falhado na busca pela justificação do conhecimento.

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Proposições sintéticas a priori, Kant argumenta, demandam um tipo inteiramente diferente de provas em relação àquelas necessárias para as proposições analíticas a priori ou  para as  proposições sintéticas  a posteriori. Indicações de como proceder, diz Kant, podem ser encontradas nos exemplos das proposições sintéticas a priori nas ciências naturais e na matemática, especialmente na geometria. Afirmações como “A quantidade de matéria é sempre preservada” e “a soma dos ângulos de um triângulo sempre é igual a 180º” são conhecidas a priori, mas não podem ser conhecidas meramente a partir dos conceitos da matéria ou do triângulo. É necessário ir fora e além do conceito. Assim, as questões geradas pelo empirismo e pelo racionalismo podem ser resumidas no problema: “Como são possíveis juízos sintéticos a priori ?”

A conclusão de Kant é que um certo número de proposições sintéticas a priori, como as da geometria  e das ciências naturais, são verdadeiras por causa da estrutura da mente que as conhece. “Cada evento deve ter uma causa” não pode ser provado pela experiência, como demonstrou Hume; contudo, a experiência é impossível sem esse princípio, porque ele descreve o modo como a mente deve necessariamente ordenar suas representações. Podemos compreender o argumento de Kant novamente ao considerarmos seus predecessores. De acordo com a tradição racionalista e empirista, a mente é passiva seja porque possui ideias inatas e bem formadas prontas para a análise, seja porque recebe ideias de objetos em uma espécie de teatro vazio ou folha em branco. A intuição crucial de Kant consiste na afirmação de que a experiência do mundo, do modo como nós o experimentamos, somente é possível se a mente provir uma estrutura sistemática de suas representações. Essa estrutura encontra-se abaixo do nível (ou, em outras palavras, é logicamente anterior) das representações mentais que os empiristas e racionalistas analisaram. Suas teorias epistemológicas não poderiam adequadamente explicar o tipo de experiência que nós temos porque apenas consideram os resultados das interações da mente com o mundo, e não investigam a natureza da contribuição da mente para esses resultados.

A ideia de que a mente tem um papel ativo na estruturação da realidade nos é tão familiar atualmente que é difícil compreender o caráter profundamente inovador da tese de Kant. Ele tinha bastante consciência do poder transformador de suas ideias: afirmou que estava realizando uma revolução semelhante à de Copérnico em nossa visão de mundo. Até Kant, imaginava-se que a nossa cognição deveria conformar-se aos objetos; mas essa abordagem não podia explicar por que algumas proposições como “Todo evento deve ter uma causa” são verdadeiras a priori. Similarmente, Copérnico reconheceu que o movimento aparente das estrelas não podia ser explicado somente por meio de suas órbitas em torno do observador; é o observador que deve estar se movendo. De modo análogo, Kant argumentou que precisávamos reformular o modo como nós pensamos sobre nossa relação com os objetos. É a própria mente que dá aos objetos pelo menos algumas de suas características, porque eles precisam conformar-se à estrutura e às capacidades conceituais da mente. Assim, o papel ativo da mente, que contribui para a criação de um mundo que pode ser experimentado, deve ser colocado no centro de nossas investigações filosóficas. O lugar apropriado para qualquer investigação filosófica sobre o conhecimento, diz Kant, é a mente que é capaz de conhecer.

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Friendrich Hegel
(Stuttgart, 27 de agosto de 1770 – Berlim, 14 de novembro de 1831)

Hegel nasce em Stuttgart, um reduto da crescente religião protestante luterana, dentro de um contexto de amplitude católica, inicialmente estuda Filosofia com a intenção de tornar-se pastor. Foi no seminário que deparou-se com a Filosofia, tendo como amigo Schelling e apaixonando-se pelos acontecimentos da então recente Revolução Francesa. Foi um dos poucos filósofos reconhecido por sua obra ainda em vida, seu livro “Fenomenologia do Espírito” ganhou notoriedade.

O conceito de Hegel mais famoso e mais cobrado em provas e vestibulares está na “dialética”, termo já amplamente utilizado por outros momentos da Filosofia, como na obra de Heráclito e Sócrates, mas que torna-se mais rebuscado na obra do autor alemão.

DIALÉTICA

De maneira literal e etimológica, dialética possui o significado de “dualidade”, “troca”, “diálogo”, etc. Sendo assim, representa uma função básica e fundamental para o pensamento filosófico. O diálogo dialético apresenta mais de uma opinião, apresenta uma dualidade do uso da razão, com posições contrárias que buscam o enfrentamento.

A dialética hegeliana apresenta uma noção permanente dessa embate, em que ideias distintas entram em choque constante, em que nenhuma ideia permanece a mesma ou fica sem alteração. Todas as ideias fechadas e sólidas morrem, por passar por um conflito em que novas são construídas. A força destruidora das ideias (dialética) é a matriz do processo histórico, em que ideias opostas se enfrentam trazendo sempre novas possibilidades históricas, nada permanecendo o mesmo, estando em constante processo de construção.

O enfrentamento de ideias e a construção de novas percepções é uma conquista da razão humana, a capacidade humana de reflexão gera novas acepções da verdade, mas de maneira alguma Hegel busca dizer que a verdade é relativa, a intenção é apresentar o ponto fundamental da razão humana, que é tão essencial que constrói novas pontes ao pensamento humano, trazendo novas relações dialéticas que constroem novas formas de pensar e olhar para o mundo, como disse Marilena Chaui: “A razão não está na História; ela é a História. A razão não está no tempo; ela é o tempo. Ela dá sentido ao tempo.”

A dialética de Hegel traz uma nova visão da história, o mundo presente deixa de ser um processo natural de construção, de acumulação de acontecimentos, em que as coisas acontecem ao acaso. Hegel vai considerar que a história é uma gênese de contradições, de embates, de enfrentamentos, em que ocorre uma construção perene de novas acepções e formatos de pensar.

O processo dialético apresentado por Hegel traz algo além de Heráclito, por organizar um novo pressuposto, se constitui de três etapas:

1. a tese (ou afirmação),

2. a antítese (ou negação da afirmação)

3. e a síntese ( ou negação da negação, que é uma nova afirmação).

A síntese de Hegel transforma-se em tese, não sendo algo definitivo, estando sempre disposta a encontrar uma visão contrária que afirme uma nova possibilidade, toda síntese pode virar uma tese, basta encontrar sua antítese, um processo permanente e contínuo.

Para muitos, a dialética hegeliana é idealista, pela racionalidade não ser mais uma busca, e sim ser a realidade em si, já que somente com a razão é possível encontrar a realidade dialética, em que sempre estamos construindo novas possibilidades de pensar.

A CONSCIÊNCIA

Parte do chamado Idealismo alemão, posterior e crítico a obra de Kant, Hegel vai tentar compreender a formulação da consciência, seus atributos e organizações. Hegel acusava Kant de ter se distanciado do objetivo fundamental da Filosofia, que ele entende ser a busca pela verdade. Os filósofos anteriores concentram-se em abordar o entendimento da natureza, vide os racionalistas, empiristas e Kant, autor criticista, Hegel vai considerar um afastamento das funções primordiais.

A busca pela verdade ocorre pelo entendimento da consciência humana, a consciência humana, que Hegel vai chamar de Espírito, dá significado para tudo ao nosso redor. A consciência é formada pelas experiências que possuímos com os demais, entendemos quem nós somos observando os demais, em um processo de oposição, que formula nossa percepção de si, sabemos quem somos por oposição aos demais. O homem também cria sua consciência em contraposição aos demais seres, observando ser diferente de qualquer outra acepção de espécie.

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A questão é que não basta somente possuir as experiências, é importante uma interpretação, em que as experiências sejam pensadas segundo a realidade do indivíduo. Entender o espírito humano interliga-se as experiências conectadas a uma interpretação acerca delas. As consciências evoluem, as experiências fazem que se passe por três estágios.

1. Consciência Sensível: Formulação do ser sobre si mesmo, a partir de suas experiências.

2. Consciência Infeliz: Percepção do homem em entender sua influência sobre o mundo ao seu redor, momento em que o indivíduo concebe que o mundo ao seu redor gira em torno de suas ações. Percepção que nada ao seu redor possui valor por si só, que o indivíduo que dá valor ao mundo ao seu redor.

3. Espírito Absoluto/Consciência em si-para-si: Entendimento do poder que se tem sobre o mundo ao seu redor, usar esse poder para mudança.

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