GLOBALIZAÇÃO

A expressão “globalização” tem sido utilizada mais recentemente num sentido marcadamente ideológico, no qual assiste-se no mundo inteiro a um processo de integração econômica sob a égide do neoliberalismo, caracterizado pelo predomínio dos interesses financeiros, pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das empresas estatais e pelo abandono do estado de bem-estar social.
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Essa é uma das razões dos críticos acusarem-na de ser responsável pela intensificação da exclusão social (com o aumento do número de pobres e de desempregados) e de provocar crises econômicas sucessivas, arruinando milhares de poupadores e de pequenos empreendimentos

Antes do início da primeira fase da globalização, os continentes encontravam-se separados por intransponíveis extensões acidentadas de terra e de águas, de oceanos e mares, que faziam com que a maioria dos povos e das culturas soubessem da existência uma das outras apenas por meio de lendas. Podemos identificar três etapas ao longo do tempo até chegar à globalização nos dias atuais:

Primeira fase: dominada pela expansão mercantilista (de 1450 a 1850) da economia-mundo europeia;

Segunda fase: vai de 1850 a 1950, caracterizada pelo expansionismo industrial-imperialista e colonialista;

Terceira fase: representa a globalização propriamente dita, acelerada a partir do colapso da URSS e a queda do muro de Berlim, de 1989 até o presente.

PRIMEIRA FASE DA GLOBALIZAÇÃO (1450-1850)

A primeira etapa, resultado da procura de uma rota marítima para as Índias, assegurou o estabelecimento das primeiras feitorias comerciais europeias na Índia, China e Japão, e, principalmente, abriu aos conquistadores europeus as terras do Novo Mundo. Enquanto as especiarias eram embarcadas para os portos de Lisboa e de Sevilha, de Roterdã e Londres, milhares de imigrantes iberos, ingleses e holandeses, e um bem menor número de franceses, atravessaram o Atlântico para vir ocupar a América. Aqui formaram dois tipos de colônias:

1. Colônias de exploração, no sul da América do Norte, no Caribe e no Brasil, baseadas geralmente num só produto (açúcar, tabaco, café, minério etc.) utilizando-se de mão de obra escrava vinda da África ou mesmo indígena;

2. Colônias de povoamento, estabelecidas majoritariamente na América do Norte, baseadas na média propriedade de exploração familiar.

Para atender às primeiras colônias de exploração, o brutal tráfico negreiro tornou-se rotina, fazendo com que 11 milhões de africanos (40% deles destinados ao Brasil) fossem transportados pelo Atlântico para labutar nas lavouras e nas minas. Igualmente não se deve omitir que a colonização europeia promoveu uma espantosa expropriação das terras indígenas e no sufocamento ou destruição da sua cultura. Em quase toda a América ocorreu uma catástrofe demográfica, devido aos maus tratos que a população nativa sofreu e as doenças e epidemias que os devastaram devido ao contato com os colonizadores europeus.

Nesta primeira fase, estrutura-se um sólido comércio triangular entre a Europa (fornecedora de manufaturas), África (que vende seus escravos) e América (que exporta produtos coloniais). A imensa expansão deste mercado favorece os artesãos e os industriais emergentes da Europa, que passam a contar com consumidores num raio bem mais vasto do que aquele abrigado nas suas cidades, enquanto que a importação de produtos coloniais faz ampliar as relações intereuropeias. Exemplo disso ocorre com o açúcar cuja produção é confiada aos senhores de engenho no Brasil, mas que é transportado pelos lusos para os portos holandeses, onde lá, encarregam-se do seu refino e distribuição.

Politicamente, a primeira fase fez-se quase toda ela sob a égide das monarquias absolutistas que concentram enorme poder e mobilizam os recursos econômicos, militares e burocráticos para manterem e expandirem seus impérios coloniais. Os principais desafios que enfrentam advinham das rivalidades entre elas, seja pelas disputas dinásticas territoriais ou pela posse de novas colônias no além-mar, sem esquecer-se do enorme estrago que os corsários e piratas faziam, especialmente nos séculos XVI e XVII, contra os navios carregados de ouro e prata e produtos coloniais.

A doutrina econômica desta primeira fase foi o Mercantilismo, adotado pela maioria das monarquias europeias para estimular o desenvolvimento da economia dos reinos. Ele era baseado numa legislação que recorria a medidas protecionistas, incentivos fiscais e doação de monopólios para promover a prosperidade geral. A produção e distribuição do comércio internacional era feita por mercadores privados e por grandes companhias comerciais (as companhias inglesas e holandesas das Índias Orientais e Ocidentais) e, em geral, eram controladas localmente por corporações de ofício.

Todo o universo econômico destinava-se a um só fim: acumular riqueza. O poder de um reino era aferido pela quantidade de metal precioso (ouro, prata e joias preciosas) existente nos cofres reais. Para assegurar seu aumento, o Estado exercia um sério controle das importações e do comércio com as colônias. Esta política levou a que cada reino europeu terminasse por se transformar num império comercial, tendo colônias e feitorias espalhadas pelo mundo todo (os principais impérios coloniais foram o inglês, o espanhol, o português, o holandês e o francês).

SEGUNDA FASE DA GLOBALIZAÇÃO (1850-1950)

Os principais acontecimentos que marcam a transição da primeira fase para a segunda dão-se nos campos da técnica e da política. A partir do século XVIII, a Inglaterra industrializa-se aceleradamente e, depois dela, a França, a Bélgica, a Alemanha e a Itália. A máquina a vapor é introduzida nos transportes terrestres (estradas de ferro) e marítimos (barcos a vapor). Consequentemente, essa nova época será regida pelos interesses da indústria e das finanças, ou seja, pela grande burguesia industrial e bancária. Essa interpenetração dos bancos com a indústria, com tendências ao monopólio ou ao oligopólio, fez com que ocorresse “uma prática imperialista”.

A ampliação dos mercados e a obtenção de novas e diversas fontes de matérias-primas fazia-se necessária. Esse momento irá se caracterizar pela ocupação territorial de certas partes da África e da Ásia, além de estimular o povoamento das terras pouco habitadas da Austrália e da Nova Zelândia. A posse de novas colônias torna-se um ornamento na política das potências (só a Grã-Bretanha possuía mais de 50). O cobiçado mercado chinês finalmente foi aberto pelo Tratado de Nanquim de 1842 e o Japão também foi forçado a abandonar a política de isolamento da época.

Cada uma das potências europeias rivaliza-se com as demais na luta pela hegemonia do mundo. O resultado é um acirramento da corrida imperialista e da política belicista que levará os europeus a duas guerras mundiais, a de 1914-18 e a de 1939-45. Ademais, outros aspectos técnicos ajudam a globalização: o trem e o barco a vapor encurtam as distâncias; o telégrafo e o telefone aproximam os continentes e a comunicação. E, principalmente depois do voo transatlântico de Charles Lindbergh em 1927, a aviação passa a ser mais um elemento que permite o mundo tornar-se menor.

Nestes cem anos da segunda fase (1850-1950), os antigos impérios dinásticos desabaram (o dos Bourbons em 1789 e, definitivamente, em 1830, o dos Habsburgos e dos Hohenzollers em 1914, o dos Romanov em 1917). Se em 1914 haviam diversas potências, como o Império britânico, o francês, o alemão, o austro-húngaro, o italiano, o russo e o turco otomano, após a 2ª Guerra Mundial só restaram duas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética.

No decorrer do século XX, três grandes projetos de liderança da globalização conflitaram-se entre si: o comunista, inaugurado com a Revolução bolchevique de 1917 e reforçado pela revolução maoísta na China em 1949; o da contrarrevolução nazifascista que, em grande parte, foi uma poderosa reação direitista ao projeto comunista, surgido nos anos de 1919, na Itália e na Alemanha, estendendo-se ao Japão, que foi esmagado no final da 2ª Guerra Mundial, em 1945; e, finalmente, o projeto liberal capitalista liderado pelos países anglo-saxões, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

Num primeiro momento, ocorreu a aliança entre o liberalismo e o comunismo (entre 1941 e 1945) para a auto- defesa e, depois, a destruição do nazifascismo. Num segundo momento, os vencedores, EUA e a URSS, desentenderam-se gerando a Guerra Fria (1947-89), quando o liberalismo norte-americano rivalizou com o comunismo soviético numa guerra ideológica mundial e numa competição armamentista e tecnológica que quase levou a humanidade a uma catástrofe (a crise dos mísseis de 1962).

Com a política da glasnost, adotada por Mikhail Gorbatchev na URSS desde 1986, a Guerra Fria encerrou-se e os Estados Unidos saíram vencedores. Os três momentos-símbolo disto foram a derrubada do Muro de Berlim ocorrida em novembro de 1989; a retirada das tropas soviéticas da Alemanha reunificada; e a dissolução da URSS em 1991. A China, por sua vez, que desde os anos 1970 adotara reformas visando sua modernização, abriu-se em várias zonas especiais para a implantação de indústrias multinacionais, deixando seus aspectos ideológicos comunistas para trás. Desde então, só restou hegemônica, no moderno sistema mundial, a economia-mundo capitalista, não havendo nenhuma outra barreira a antepor-se à globalização.

A TERCEIRA FASE DA GLOBALIZAÇÃO (1989 – HOJE)

Chegamos desta forma à situação presente onde sobreviveu uma só superpotência mundial: os Estados Unidos. É a única que tem condições operacionais de realizar intervenções militares em qualquer canto do planeta (a exemplo do que fez no Kuwait em 1991, no Haiti em 1994, na Somália em 1996, na Bósnia em 1997, no Afeganistão em e no Iraque 2003).

Se a segunda fase da globalização foi marcada pelo uso da libra esterlina (já que a Inglaterra era a principal potência), atualmente é dólar que domina as transações internacionais – assim como o idioma inglês tornou-se a língua universal por excelência. Alguns autores chegam a afirmar que a globalização recente nada mais é do que a americanização do mundo.

A produção industrial nos dias de hoje é controlada predominantemente por um conjunto de cerca de quatrocentas e cinquenta grandes corporações transnacionais, que têm seus investimentos espalhados pelos cinco continentes. A nacionalidade delas é majoritariamente americana, japonesa, alemã, inglesa, francesa, suíça, italiana e holandesa, o que mostra que há uma concentração da riqueza e da tecnologia na mão de poucos países.

A ONU, que deveria ser o embrião de um governo mundial, foi fragilizada pelos interesses e vetos das superpotências durante a Guerra Fria. Em consequência dessa debilidade, formou-se uma espécie de representante dos interesses dos países dominantes.

Enquanto no passado os instrumentos da integração foram a caravela, o galeão, o barco à vela, o barco a vapor e o trem, seguidos do telégrafo e do telefone, a globalização recente se faz pelos satélites e pelos computadores ligados na Internet. O domínio da tecnologia por um seleto grupo de países ricos abriu um fosso com os demais, talvez o mais profundo em toda a história conhecida. Hoje, os países núcleos da globalização (os integrantes do G-7), estão, em quase todos os campos do conhecimento, muito à frente dos países subdesenvolvidos. Ou seja: o abismo entre os ricos do Norte e os pobres do Sul se ampliou.

Podemos identificar esse abismo através do controle que alguns países detêm sobre a tecnologia de ponta (microeletrônica, computadores, aeroespaciais, equipamento de telecomunicações, máquinas e robôs, equipamento científico de precisão, medicina e biologia e químicos orgânicos). Os EUA são responsáveis por 20,7%; a Alemanha por 13,3%; o Japão por 12,6%; o Reino Unido por 6,2%, e a França por 3,0% das exportações mundiais. Deste modo, apenas estes 5 países detêm 55,8% dessas exportações dos produtos de alta tecnologia.

A globalização, como movimento de transformação social e de produção que promete a melhoria da qualidade de vida, pasteuriza os comportamentos e as aspirações humanas, criando uma relativa homogeneização dos costumes. O cidadão brasileiro comum, embora não tenha conhecimento dos movimentos da produção e dos mercados mundiais, já está consumindo “globalmente”. Come macarrão da Itália, bebe água da França, veste camisetas da China, vê noticiários fabricados nos Estados Unidos, anda com tênis da Indonésia e viaja com carros da Coreia.

RESUMO

O processo de globalização representa a integração de lugares e o encurtamento das distâncias com o aumento dos fluxos, no que pode ser chamado de compressão espaço-tempo. Ocorre porque à medida que as informações, produtos, capitais e pessoas circulam mais e mais rápido entre os países, a tendência é que de alguma maneira, um acabe “copiando” as características dos outros. Tais “cópias” tendem a ser principalmente do “comportamento” adotado pelas pessoas ou países que sejam mais ricos – pois a sua influência chega a mais lugares. Logo, se os EUA ocupam o posto de país mais rico e influente, são as características deles as que vão ser copiadas.

Podemos considerar que há diversos tipos de globalização. A globalização econômica é bem abrangente, e significa que a economia de diversos países adquire as mesmas características: capitalistas, controladas por multinacionais, inseridas no comércio global e na DIT. A globalização financeira é uma parte da econômica, e ocorre porque hoje praticamente todas as bolsas de valores (mercado financeiro) do mundo são integradas. Há mais dinheiro circulando nesse mercado especulativo do que no setor produtivo. Já a globalização cultural ocorre através da ocidentalização dos costumes (americanização). Assistir a filmes de Hollywood e comer em redes de fast-food virou um hábito em muitos países; e junto com o filme e o alimento, você leva a ideologia e o simbolismo cultural. Por sua vez, a globalização política é manifestada pela adoção em larga escala do modelo político de governo Neoliberal, propagado pelos EUA ao mundo e que se tornou bastante utilizado – inclusive pelo Brasil.

Sendo um processo, e não um fato, a globalização pode ser considerada com tendo evoluído a partir de suas fases. A expansão marítima, as revoluções industriais (principalmente a 3ª R.I.), o imperialismo e por fim, o término da Guerra Fria são fatores que ajudaram a integrar as regiões do mundo. Porém, é sabido que a globalização (que já foi chamada de fábrica de desigualdades) não só integra, mas também fragmenta. Ela não é homogênea, e tende a criar uma divisão ainda maior entre os países desenvolvidos do Norte e os países pobres do Sul – ou seja, o “conflito Norte x Sul”.

Na era da atual globalização, as indústrias são predominantemente toyotistas e os estados (governos) neoliberais. Com isso, as condições de trabalho tornam-se cada vez piores para a mão-de-obra. É a chamada precarização ou flexibilização do trabalho. A criação dos contratos flexíveis e a terceirização de trabalhadores e empresas são práticas cada vez mais comuns, enfraquecendo os sindicatos. A situação piora por conta do aumento da automação (robotização), que reduz o número de empregos (desemprego estrutural), deixando milhares como exército industrial de reserva. Muitos destes acabam entrando em subempregos ou no trabalho informal (sem carteira assinada), reduzindo ainda mais os níveis salariais e a qualidade de vida.

Cabe citar que, nos últimos anos, tem crescido o número de especialistas que afirmam estar ocorrendo o início de um processo de desglobalização. Tal processo se manifestaria por meio de políticas públicas como as adotadas pelos governos de Donald Trump e outros, cujas práticas incluem a restringir os fluxos migratórios e aumentar o protecionismo econômico. Outro exemplo de desglobalização estaria na saída do Reino Unido da União Europeia. Sendo assim, podemos afirmar que, ao mesmo tempo em que alguns países aumentam seu grau de integração com os demais, outros países têm praticado o fechamento de fronteiras e dificultado a circulação de determinados fluxos.

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