A GUERRA FRIA – 1981 – 1989 – A CRISE DO SOCIALISMO

A história do colapso da União Soviética deve ser contada a partir da década de 1970, quando o país dava pequenas mostras de que o regime político e econômico não ia bem. Após sufocar os movimentos liberais de 1956, na Hungria e 1968, na Tchecoslováquia, os soviéticos envolveram-se na aventura militar do Afeganistão em 1979.
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A AVENTURA SOVIÉTICA NO AFEGANISTÃO

Em 17 de julho de 1973, um golpe de estado, fomentado por militares comunistas, destituiu o rei Shah Zaher. O chefe do novo governo republicano, Mohammed Daud, porém, começa a demonstrar uma linha de política externa independente, afastando-se da União Soviética. Daud acaba sendo derrubado em 27 de abril de 1978, na chamada “revolução de Saur”. A República Democrática do Afeganistão, dirigida por Nur-Mohammed Taraki, é reconhecida imediatamente pelo governo soviético de Leonid Brejnev, sucessor de Kruschev no Kremlin.

A administração Taraki inicia uma série de medidas proibitivas que levariam o país ao colapso social definitivo. O islamismo é considerado ilegal, e o Alcorão é queimado em praça pública. A guerra civil começa.

A União Soviética presta auxílio ao governo comunista afegão, utilizando caças Migs para bombardear cidades dominadas pelos rebeldes muçulmanos Mujahedin. A situação piora quando o Khalq e o Partcham disputam o poder. Taraki é assassinado, sendo substituído por Hafizullah Amin. Um comando soviético executa Amin, colocando o títere Babrak Karmal na Presidência do país. Em 27 de dezembro de 1979, atendendo a uma solicitação de Karmal, Brejnev desencadeia a operação Borrasca 333. A invasão soviética ao Afeganistão, que perduraria até 1989, começara.

O motivo que levou a uma intervenção militar de Moscou não foi apenas a tradicional política de expansão russa para o mar, que o historiador Eric J. Hobsbawn vai alcunhar como teoria de “atlas escolar”. A manutenção de um regime favorável ao Kremlin era imprescindível. Seria  extremamente perigoso para a superpotência perder o controle do governo comunista no Afeganistão. A queda de Karmal poderia excitar um “nacionalismo islâmico” nas repúblicas soviéticas da Ásia Central.

A resistência dos afegãos era composta por cerca de sete grupos sunitas, guarnecidos pelo Paquistão, e oito grupos xiitas, incentivados pelo Irã. Contudo, não foram apenas os gritos de “Allah o Akbar! (“Deus é grande!”)” que decidiram a vitória islâmica contra os soviéticos. A Guerra Fria fez com que os Estados Unidos da América a auxiliassem em oposição ao regime comunista de Cabul. Os mísseis antiaéreos portáteis Stinger, de fabricação norte-americana, nas mãos do Mujahedin, começaram a abater helicópteros Mi-24 da União Soviética.

O diretor da CIA, William Casey, desenvolveu a guerra de infiltração: dez mil volumes do Alcorão, em idioma uzbeque, foram enviados para a região. O Kremlin, temendo que soldados soviéticos das repúblicas islâmicas pudessem se sensibilizar com o conflito, substitui estes grupamentos militares por contingentes da Rússia, Ucrânia e repúblicas bálticas.

O presidente americano Jimmy Carter protesta formalmente contra a invasão soviética, boicotando os Jogos Olímpicos de Moscou (1980). Cerca de 30 países não comparecem aos Jogos, ratificando a posição norte-americana. A Grã-Bretanha e a França, aliadas dos Estados Unidos, entretanto, enviam delegações para a URSS.

O saldo da guerra do Afeganistão é desastroso para o Kremlin. No campo diplomático, o ataque é condenado mundialmente, aliando temporariamente inimigos irreconciliáveis, como Arábia Saudita, China, Estados Unidos, Irã e Paquistão. As estatísticas não são mais animadoras para os soviéticos: mais de 13 mil militares do Exército Vermelho morrem durante a ocupação. A economia do país, já debilitada pela corrida armamentista contra os Estados Unidos, acelera seu processo de falência.

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O secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbatchev, cumpre o acordo de paz de Genebra, retirando, em 15 de fevereiro de 1989, a última guarnição militar soviética estacionada no Afeganistão: a 201ª divisão de reconhecimento, comandada pelo tenente-coronel Boris Gromov. O governo comunista afegão de Mohammed Najibullah é abandonado à própria sorte, até a vitória dos rebeldes muçulmanos em 1992.

O Afeganistão, arrasado por quase 30 anos de guerras, é o retrato da miséria. Um saldo de mais de dois milhões de mortos, ausência de atividades econômicas e milhares de refugiados nos países vizinhos. Com a queda de Najibullah, o islã, vilipendiado pelo materialismo histórico de Moscou, triunfa. As rivalidades entre os grupos muçulmanos, entretanto, estenderam a guerra pela década de 1990. A milícia talibã conquista Cabul em 27 de setembro de 1996, passando a impor seu radicalismo religioso. A “Idade Média” do Crescente proíbe mulheres de frequentar escolas e destrói imagens milenares sob a pecha da idolatria.

PERESTROIKA E GLASNOST: AS REFORMAS DE GORBATCHEV

A linha de sucessão do poder na União Soviética foi inaugurada por Vladimir Lênin com a revolução de outubro de 1917. Depois da morte de Lênin, em 1924, Stálin e Trotsky disputaram a sucessão, sendo Stálin o novo líder soviético até 1953, ano de sua morte. Kruschev, stalinista ucraniano, substituiria o “Grande Irmão”, até ser deposto pelo Politburo em 1964, quando Leonid Brejnev assumiria. Com a morte de Brejnev, dois idosos comunistas ortodoxos preencheram o mais importante posto político do mundo comunista. Yuri Andropov e Chernenko, juntos, governaram a União Soviética por menos de cinco anos, pois ambos faleceram no exercício da função. O Politburo, o Parlamento comunista, decidiu-se então por um jovem político chamado Mikhail Gorbatchev, que, em março de 1985, assumiu a cadeira que foi de Lênin, o pai fundador da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Já em 1986, durante o XXVII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Gorbatchev faria o anúncio de um conjunto de reformas que dariam o impulso final que faltava para o colapso político da URSS. A perestroika, reestruturação econômica, e a glasnost, foram anunciadas com pouco alarde, contudo, promoveriam uma revolução no Leste Europeu como não se via desde os movimentos nacionalistas e liberais do século XIX. O poderio da Rússia soviética, construído por mais de setenta anos, começava a ruir pelas próprias contradições do sistema socialista soviético que, ironicamente, Marx não previu.

O primeiro problema que os soviéticos enfrentavam era o atraso tecnológico, no qual estavam ficando perigosamente para trás em relação aos Estados Unidos. Em março de 1983, o presidente norte-americano Ronald Reagan anunciara o sistema strategic defense iniative, apelidado pela imprensa como “projeto Guerra nas Estrelas”, que consistia em um investimento orçado em trilhões de dólares para o desenvolvimento e construção de um escudo antimísseis a partir da equipagem de satélites artificiais com feixes de laser que pudessem destruir projéteis lançados contra o território americano. O recado de Reagan era claro: os Estados Unidos estavam alcançando um nível de desenvolvimento tecnológico que acabaria com o elemento de dissuasão da Guerra Fria, ou seja, o risco de suicídio nuclear. Os Estados Unidos, portanto, poderiam desfechar um ataque nuclear contra a União Soviética, pois teriam condições de repelir o contra-ataque. Ademais, o recado estendia-se no âmbito econômico: se os soviéticos ousassem competir ainda no plano tecnológico e bélico, teriam que comprometer suas já debilitadas finanças. A União Soviética perdia a corrida tecnológica e a III Revolução Industrial.

Em abril de 1986, um acidente nuclear na usina de Chernobyl, localizada na república soviética da Ucrânia, deixava em evidência a fragilidade do sistema tecnológico soviético. Além disso, as reformas de Gorbatchev mostravam-se necessárias por conta de outros graves problemas. As nacionalidades subordinadas ao poder moscovita clamavam por maior liberdade dentro da União Soviética. A URSS era, na realidade, um Estado multinacional, no qual os russos desempenhavam um papel de vanguarda por conta de sua grandiosidade territorial e demográfica.

Outros Estados, contudo, compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas: Ucrânia, Bielorrússia, Estônia, Letônia, Lituânia, Azerbaijão, Turcomenistão, Cazaquistão, Uzbequistão. Ademais, o péssimo padrão de qualidade dos bens de consumo duráveis na União Soviética gerava um contraste intolerável. A URSS era um dos países de preponderância da corrida aeroespacial, contudo, o soviético comum era obrigado a conviver com racionamentos diários de produtos cotidianos e consumir bens de péssima qualidade, como, por exemplo, o automóvel Lada. Uma minoria privilegiada, denominada em russo de nomenklatura, entretanto, gozava de privilégios dentro do Estado soviético. A nomenklatura era a burocracia estatal da União Soviética que obtinha, por exemplo, acesso aos bens de consumo do ocidente, proibitivos dentro do mundo comunista.

AS REVOLUÇÕES LIBERAIS DE 1989

O anúncio das reformas de Gorbatchev começou a contagiar o Leste Europeu de um modo surpreendentemente rápido, levando à derrocada do sistema que Lênin criara e Stálin impusera à força.

Em julho de 1989, o sindicato polonês Solidariedade, graças às reformas de Gorbatchev, as quais preconizavam um considerável liberalismo político, obteve uma das mais esmagadoras vitórias eleitorais da história da Europa, mostrando o quanto a população da Polônia comunista não suportava mais um regime ditatorial que oferecia um péssimo padrão de vida. O sindicalista católico Lech Walesa tornar-se-ia o primeiro presidente não comunista do país desde a Segunda Guerra Mundial.

No mês seguinte, na Praça Tiananmen, conhecida pelos ocidentais como Praça da Paz Celestial, em Pequim, ocorreu o mais terrível massacre comunista perpetrado contra manifestantes empolgados com o anúncio das reformas Gorbatchev. Os jovens estudantes chineses reuniram-se na Praça da Paz Celestial, centro do poder político chinês, com o objetivo de forçar o governo a adotar as reformas recomendadas por Gorbatchev. Os estudantes chegaram a construir uma estátua de gesso, apelidada de Deusa da Democracia, uma referência clara à estátua da liberdade dos Estados Unidos. O governo comunista, contudo, dispersou a manifestação empregando o exército. A cena de um jovem estudante barrando sozinho uma coluna de tanques entraria para a História do século XX como uma das imagens políticas mais expressivas e emocionantes.

Em novembro de 1989, o Muro de Berlim cairia. O símbolo maior da Guerra Fria na Europa foi colocado abaixo após a Alemanha Comunista permitir que a população de Berlim Oriental pudesse transitar livremente para a Berlim Ocidental. A população alemã, empolgada, começou a destruir o muro. Em outubro de 1990, as duas Alemanhas finalmente passariam pelo processo de reunificação política, que, infelizmente, foi acompanhado pelo discreto retorno de manifestações xenofóbicas e neonazistas, que tinham como alvos principais os imigrantes do Leste Europeu e da Turquia.

Em dezembro de 1989, o vento da liberdade oriental varreria de modo extremamente violento a ditadura comunista da Romênia. O ditador Nicolau Ceaucescu, não aceitando a perda do poder, acabaria enfrentando uma manifestação popular que nem mesmo a sekuritat, a polícia secreta romena, conseguiria barrar. O casal Ceaucescu seria fuzilado próximo à noite de Natal de 1989.

Em julho de 1991, após a declaração de independência da Eslovênia e da Croácia, começa a guerra civil da Iugoslávia, que levaria à fragmentação política do país, na qual a Bósnia-Herzegovina e a Macedônia também se desligariam. O país, contudo, manteria o nome Iugoslávia até 2003, quando assumiria simplesmente a denominação de Sérvia e Montenegro.

Em agosto de 1991, uma junta da linha-dura soviética tenta, em vão, barrar as reformas de Gorbatchev que, efetivamente, acabariam com o socialismo na Europa oriental. O golpe, contudo, enfrenta a resistência da população russa, liderada por Boris Yeltsin, futuro presidente da Rússia democrática. Gorbatchev acaba sendo libertado e imediatamente as repúblicas bálticas, acompanhadas posteriormente por Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, declaram independência, formando a Comunidade dos Estados Independentes. Em 25 de dezembro de 1991, formalmente a União Soviética deixava de existir. Em 1993, a Revolução de Veludo, na qual a República Tcheca e a Eslováquia se separam pacificamente, completou o quadro da crise do socialismo.

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