VARIAÇÃO LINGUÍSTICA I – SOCIAL E REGIONAL

Aprenda sobre a Variação Linguística Social e Regional.

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email
Share on linkedin

Veja esta tira de Luis Fernando Verissimo:

(VERISSIMO, Luis Fernando. Aventuras da Família Brasil. Porto Alegre: L&PM, 1993.)

Didática imbatível de nossos professores!

ProBlack

14 meses de acesso

  • Turma Extensiva 2020/2021
  • 6 Simulados
  • 4 Redações Corrigidas por mês

R$ 599,44

12x de: R$

R$ 19,90

Eu quero

A tira é construída em três cenas. Nelas, se verifica uma situação de conversação entre os personagens envolvidos. A filha é quem representa papel de locutor, isto é, a pessoa que fala, na primeira cena. Os pais são os interlocutores, isto é, as pessoas com quem se fala. Essa tira retrata uma situação de comunicação, pois as pessoas interagem pela linguagem, de tal forma que modificam o comportamento do outro. Assim, o que uma pessoa transmite a outra na forma de linguagem chama-se mensagem. A comunicação ocorre quando, ao emitirmos uma mensagem, nos fazemos compreender por uma pessoa.

Em um ato de comunicação não estão em jogo somente palavras, mas também gestos e movimentos. Quando empregamos esses elementos com a intenção de estabelecer uma comunicação, estamos usando diferentes linguagens. Essa Linguagem, por conceito, é a representação do pensamento por meio de sinais que permitem a comunicação e a interação entre as pessoas.

Tais sinais que permitem o ato de comunicação são os chamados Signos Linguísticos. Segundo o escritor e linguista Umberto Eco, define-se como signo aquilo que “à base de uma convenção social previamente aceita, possa ser entendido como algo que está no lugar de outra coisa”. Por exemplo, quando se diz que alguém é uma raposa, por uma convenção, estabelece-se que se trata de alguém esperto, por uma analogia com o animal, o vocábulo “raposa” está em lugar de “esperto” no contexto.

O ser humano utiliza diferentes tipos de linguagem, como a da música, da dança, da pintura, da fotografia. Essas várias linguagens se organizam em dois grupos: a linguagem verbal, que tem por unidade os signos verbais, as palavras; e as linguagens não verbais, que têm como unidade signos não verbais, como o gesto, a imagem, o movimento, como analisado acima. Há, ainda, as linguagens mistas, como a das histórias em quadrinhos, o cinema, a televisão, que utilizam a palavra e a imagem.

Numa situação de comunicação, se empregamos palavras, gestos, movimentos, estamos empregando um código. Código é um conjunto de sinais convencionados socialmente para a transmissão da mensagem. Não só as palavras, gestos, são códigos, mas também os sinais de trânsito, os símbolos, o código morse, as buzinas de automóveis. É importante notar que só haverá comunicação utilizando um código se os interlocutores tiverem essa convenção internalizada. Determinados gestos podem representar sentidos diferentes dependendo das comunidades em que se vive.

Dessa forma, como afirma o linguista russo Mikhail Bakhtin, a verdadeira substância da língua não está num sistema abstrato de formas linguísticas, mas no fenômeno social da interação verbal, realizado através da enunciação. Diz ele: “A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua”.

Uma língua apresenta diferentes usos, seja por diferenças regionais, de idade ou ainda de grupos sociais distintos. São as variabilidades linguísticas. É importante notar que essas variabilidades representam um acerto ou um erro. Assim, não há uma variedade certa ou errada, o que há é uma variedade adequada. Dentre essas variabilidades, existe a que tomamos como norma culta, ou seja, a língua padrão. As outras variabilidades dessa língua padrão são chamadas de norma popular.

As gírias, os jargões de grupos ou profissões, os desvios da coloquialidade fazem parte dessa norma popular. Do falante de língua portuguesa espera-se que ele domine não somente a norma culta, mas também as nuances da norma popular para que, dependendo do contexto em que se está inserido, faça-se uso de uma ou outra norma, adequando a variabilidade utilizada ao contexto discursivo.

Em letras de música, é muito comum o eu lírico do texto usar uma linguagem com marcas de um registro popular, seja para adequar seu discurso ao contexto da música, seja para atingir o interlocutor de maneira direta. Veja este trecho da música Berreco, de Claudinho e Buchecha:

Berreco, abre o seu olho

para outro não tomar sua sopa.

Mantenha sua barba de molho,

sua mina anda quase sem roupa.

E sai por aí dando bolada,

ela só que zoar,

ela nem quer saber

A música utiliza uma linguagem adequada ao universo do funk. A “suposta” traição da mulher é descrita como “dar uma bolada”, sinal de que outro está “tomando a sua sopa”. O vocabulário aqui empregado é perfeitamente adequado ao contexto sociolinguístico dos músicos. A norma culta, se empregada nessa música, seria totalmente inadequada.

Repare neste outro trecho, da música As Mariposa, de Adoniran Barbosa:

As mariposa quando chega o frio fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá

Nessa música, existe uma valorização do espaço rural em relação ao espaço urbano, que pode ser determinante na variabilidade que se emprega. A ausência da concordância, além da grafia próxima à fala, é também uma valorização do discurso oral em relação ao discurso escrito. Não há que se pensar que a escrita tem mais valor que a oralidade. São modalidades distintas, com sintaxes próprias.

Em se tratando de variação da língua, não há como não falar sobre as diferenças da Língua Portuguesa entre Brasil e Portugal. Veja a resposta dada pelo escritor português José Saramago a uma entrevista sobre esse tema:

Língua – As diferenças entre a língua no Brasil e em Portugal são maiores que nossas semelhanças?

Saramago – Costumo dizer que não há uma língua portuguesa, há línguas em português. Quando digo isso não penso em diferenças e semelhanças. Penso num tronco linguístico comum que, de modo variável, segundo as condições sociais, culturais e ideológicas vigentes, se expressa “historicamente”. As línguas mudam, o denominado “português de Portugal” não é igual hoje ao que foi no século 17, para não ir mais longe. Ora, se isto é claro no mesmo país, como o não seria em países diferentes? Deixemos portanto em paz as semelhanças e as diferenças porque elas são, umas e outras, sinal de vida. As línguas mortas são as que não mudam.

Dessa forma percebemos que há inúmeras maneiras de haver variação na língua. Aquelas ligadas às questões sociais, envolvem o uso popular da linguagem, tomando as diversas classes e atuações sociais dos falantes, bem como aquelas oriundas das questões geográficas que envolvem um falante.

É importante perceber que tais fatores não são determinantes e igualam falantes entre si, mas são fatores de influência na expressão linguística de cada enunciador. Evidentemente, o convívio dentro de determinados ambientes produz uma necessidade de adequação do discurso realizado aos seus interlocutores, entretanto isso não deve ser tomado como uma imposição absoluta que leve à formação de estereótipos linguísticos.

Cada uma das modalidades em que uma língua se diversifica, em virtude das possibilidades de variação dos elementos do seu sistema ligadas a diversos fatores, formam o painel da variabilidade linguística que pode se manifestar no vocabulário, na pronúncia ou mesmo na sintaxe.

CADASTRE-SE

E receba em primeira-mão todas as novidades dos Vestibulares, Ofertas, Promoções e mais!