GERAÇÃO DE 30 – A POESIA DE DRUMMOND, CECÍLIA E VINÍCIUS

O período que vai de 1930 a 1945 foi o mais conturbado de todo século XX. Ainda sob impacto da crise econômica advinda da quebra da bolsa de Nova Iorque, o mundo passa a viver os tempos da Grande Depressão, em que as fábricas paralisam suas produções, as relações comerciais se desfazem, bancos vão à falência, eleva-se assustadoramente o desemprego mundial, a fome e a miséria globalizam-se.
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email
Share on linkedin

Os Estados intervêm desorganizadamente na economia, tentando soluções internas para uma crise que ultrapassa fronteiras. O inevitável agravamento das questões sociais cria um campo fértil ao avanço das ideias socialistas e comunistas, ampliando o clima conflituoso, contrapondo-se ideais marxistas às burguesias nacionais, defensoras do autoritarismo estatal, baseado nos pilares do conservadorismo, do nacionalismo e de uma militarização crescente. O sentimento anticomunista, antiparlamentar e antidemocrático leva à criação de um Estado fascista. A Itália de Mussolini, a Alemanha de Hitler, a Espanha de Franco e Portugal de Salazar são provas inequívocas do crescimento de tais conceitos.

ARTSBASHEFF, Boris. Ilustração para a revista Lifetime.

Em um cenário como esse, não fica difícil entender como o nazifascismo ganha espaço e apoio de toda a população alemã. As ideias expansionistas de Hitler, somadas ao crescente militarismo e ao estímulo à produção bélica, faria da Alemanha uma sombra na Europa. As frustrações geradas pelas derrotas na I Guerra Mundial e a contestação do Tratado de Versalhes dão o componente de orgulho que faltava ao povo alemão para apoiar seu führer na construção de um novo Reich. Esse quadro levaria o mundo à II Grande Guerra (1939-1945), com centenas de milhões de vítimas, e apresentaria o mundo à Era Atômica com a detonação das bombas em Hiroxima e Nagasáqui, no final da Grande Guerra.

Intensivo 2020

Um curso preparatório para o ENEM totalmente a distância, com simulados, redações corrigidas e comentadas, 4 aulas ao vivo, acervo de mais de 500 aulas gravadas para baixar em seu smartphone e assistir em qualquer lugar e a qualquer momento!

No Plano Intensivo você tem acesso a 2 turmas: a turma prodígio, que começou em maio, a turma intensiva que irá iniciar em agosto.

Intensivo

Validade: 6 meses de acesso

  • 20 Aulas ao vivo por semana
  • 2 Simulados
  • 2 Redações Corrigidas por mês

R$ 544,44

12x de: R$

R$ 14,90

Eu quero

O Brasil também não apresenta um cenário de tranquilidade. A década de 30 marca o fim da República Velha, ligada às velhas oligarquias do café e o início da revolução que levaria ao período da ditadura de Getúlio Vargas.

Enquanto a economia cafeeira sentia o duro golpe da crise mundial, o candidato das oligarquias para a sucessão de Washington Luís, Júlio Prestes, elegia-se presidente, cargo do qual jamais tomaria posse. Em outubro de 1930 estoura a revolução que leva Getúlio Vargas a um governo provisório. Os revoltosos eram apoiados pela burguesia industrial, pela classe média e pelo movimento tenentista da década anterior – a exceção foi Luís Carlos Prestes, que torna-se um dos maiores líderes comunistas brasileiros.

Em 1932, São Paulo busca a contrarrevolução como resposta à frustração das oligarquias cafeeiras paulistas com a nova ordem. Sentiam-se prejudicados pelas mudanças econômicas de Vargas, com incentivos à industrialização e à entrada de capital estadunidense.

Intensivo Plus

A prepara'ç˜ção mais completa para estudar

Curso preparatório para o ENEM e para os Vestibulares de São Paulo, como Fuvest e Unicamp, que não utilizam o ENEM como forma de ingresso, com apoio pedagógico, plano de estudos, aulas ao vivo, mais de 500 aulas gravadas, aulas de nivelamento, aulas com técnicas de redação e tudo o que você precisa para conseguir aquele notão no vestibular!

Intensivo Plus

Validade: 06 meses de acesso

  • 4 Aulas ao vivo por semana
  • 3 Simulados
  • 3 Redações Corrigidas por mês

R$ 493,50

12x de: R$

R$ 19,90

Eu quero

Além disso, burguesia paulistana temia as classes mais baixas e sua constante agitação; a gota d’água foi a nomeação de um interventor pernambucano para São Paulo: explodia em nove de julho de 1932, a Revolução Constitucionalista. A revolução contou com o apoio de praticamente todos os setores da sociedade paulista: intelectuais, industriais, estudantes, segmentos das camadas médias, políticos ligados à República Velha ou ao Partido Democrático, todos foram para as ruas e pegaram em armas.

O isolamento da revolta – que contava com o “apoio” de Minas Gerais, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, que não se envolveram militarmente no conflito – decidiu o seu fracasso. Vargas ainda enfrentou outras revoltas até tornar-se ditador, em 1937, dando origem ao período conhecido como Estado Novo, caracterizado pela perseguição aos comunistas, por ações antidemocráticas, pelo nacionalismo conservador e pela idolatria – quase fascista – do chefe de Estado: Getúlio Vargas.

Imagem de Getúlio carregada na comemoração do 1º de Maio, Dia do Trabalhador

AS INFLUÊNCIAS MODERNISTAS

A geração que sucede os vanguardistas de 22 recebe como herança suas conquistas formais e temáticas e amadurece-as. Inserida em um contexto histórico conturbado, assiste-se à ampliação temática, incorporando as preocupações relativas à humanidade e ao “estar-no-mundo”. As pesquisas estéticas aprofundam-se e a poesia chocante e destruidora dá lugar à construção de um novo modelo de pensar o homem e o mundo.

Percebe-se a influência exercida por Oswald e Mário de Andrade sobre os poetas da nova geração. São comuns as dedicatórias dos novos poetas, como Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, aos mestres da Semana de 22. Em termos formais, a estética modernista é aprofundada, com contínuo uso do verso livre e da poesia sintética.

PORTINARI, Candido. Favela. (1930)

É na temática que ocorre a introdução de uma nova visão artística, na qual torna-se constante o questionamento da realidade, do indivíduo e do próprio poeta em sua “tentativa de explorar e de interpretar o estar no mundo”. Assim, essa “segunda fase” introduz uma produção literária mais comprometida com as percepções políticas e sociais, não se afastando das profundas transformações do período; O interessante é perceber que, em vista das mazelas, da guerra e da crise, surgem também poetas que voltam-se mais para dentro de si mesmos e buscam certa espiritualização, como forma de negar a realidade horrenda que se descortina. É o caso de Jorge de Lima, de determinada fase de Murilo Mendes e, principalmente de Cecília Meirelles – que se apresenta praticamente como neossimbolista – e de Vinícius de Morais, um verdadeiro neorromântico.

A principal característica, no entanto, é a ampliação das relações entre o “eu” e o mundo, por muitas vezes com a fragilização desse “eu”. A preocupação do homem, do seu interior e de sua vida social é uma constante, consequência das guerras e revoluções que devastam nações, deixam milhares de mortos e criam uma ferida individual no poeta que sangra pela humanidade que representa. A consequência é a imagem da fragilidade diante do mundo, da impotência e da miséria humana. Contra tudo isso, resta a união e as ações coletivas.

PRINCIPAIS AUTORES

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Nascido em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902, Carlos Drummond de Andrade provém de uma decadente família de fazendeiros. Seus estudos, com os jesuítas do Colégio Anchieta de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, renderam a insólita expulsão por “insubordinação mental”. Novamente em Belo Horizonte, começou sua carreira de escritor como colaborador de um jornal local que aglutinava os novos modernistas mineiros.

Formou-se (por insistência familiar) em farmácia no ano de 1925. Já no serviço público, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou no Ministério da Educação, até o fim do Estado Novo. Trabalhou também no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional onde se aposentou em 1962. Contudo, manteve sempre suas atividades jornalísticas, como cronista no Correio da Manhã e, posteriormente, no Jornal do Brasil.

Em sua atuação nos jornais, teve enorme admiração, mantendo a serenidade como padrão de comportamento, envolvendo-se pouco em polêmicas e, não sendo unanimidade entre os intelectuais apenas pelas contundentes críticas que recebia de Nelson Rodrigues, mas, com as quais geralmente não se importava (ou fingia que não se importava) e raramente as respondia. Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro, no dia 17 de agosto de 1987, dias depois da morte de sua única filha, a também escritora e cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

Drummond mostra-se um poeta preocupado com sua individualidade, é poeta da ordem e da consolidação, embora essas mostrem-se invariavelmente contraditórias. Sua poesia denuncia o presente, um tempo assombrado pelo passado e assustado pelo futuro; tempo no qual o poeta coloca-se como testemunha de si mesmo e da história dos homens, de tal maneira cética que beira à melancolia. Não deixa, contudo, de fazer-se cronista e lançar seu sarcasmo, sua ironia, seu amargor e seu desencanto contra os costumes e contra a sociedade

Porém, é no cuidado e esmero com que constrói sua estética do modo de ser e estar que se encontra a tônica de Drummond. O tempo é sua matéria-prima, em sua passagem cotidiana e percepção subjetiva, com todo tom de crítica que pode conter o cronista-poeta. Encontra-se, assim, com seu próprio período histórico, no qual contempla a experiência coletiva, solidarizando-se com ela, atuando social e politicamente, descobrindo na luta coletiva a maneira de expressar sua preocupação íntima com a amplitude da vida. É aí que o poeta atinge sua maturidade e chaga a um nível de produção poética sublime, o qual manterá até o fim da vida.

Quanto aos temas, sua obra apresenta-se extremamente diversificada, mas com destaque para a poesia social; as reflexões existenciais – na qual contrapunha o eu e o mundo; a construção da própria poesia; o tempo passado; o amor; as crônicas poéticas do cotidiano; e a celebração dos amigos.

A linguagem de Drummond impressiona pela vitalidade, pela criatividade e pela capacidade de sugestão, combinando aspectos tradicionais, como a sublimação e o tom elevado, às experiências vanguardistas, como os coloquialismos e a linguagem prosaica. Explora o campo dos significados, desvenda as “infinitas faces das palavras”, expressando inúmeras possibilidades interpretativas pelas possibilidades polissêmicas com as quais brinca o autor.

Um dos aspectos mais incomuns da personalidade do escritor é sua autodefinição como gauche (esquerdo, em francês), com o qual representa a si mesmo como anti-herói, torto, desajeitado, errado, aquele que está em desacerto com o mundo, para quem nada dá certo. Aliado a isso, um humor sutil, até certo ponto sarcástico, lança um olhar gauche sobre a própria realidade, buscando uma reflexão sobre o sentido das coisas, as mais banais que sejam, donde se extraem – de maneira ácida – a crítica ao próprio mundo.

Prodígio

Se você ainda não começou a estudar para o Enem, relaxa! A gente te ajuda! Com o novo plano Prodígio, vamos te ajudar a entrar para o time dos aprovados. ;)

Você terá um plano de estudos de 26 semanas, com 20 aulas semanais de todas as matérias, que abordarão todo o conteúdo sua prova. Também contará com monitorias ilimitadas, para tirar as dúvidas que surgirem das aulas assistidas, 3 simulados com a mesma quantidade de questões e tempo de prova do Enem, exercícios semanais com resolução em vídeo para você fixar bem todo o conteúdo das aulas e uma redação corrigida e comentada por mês.

Prodígio

Validade: 12 meses de acesso

  • 20 Aulas ao vivo por semana
  • 3 Simulados
  • 1 Redação Corrigida por mês

R$ 411,80

12x de: R$

R$ 14,90

Eu quero

Enfim, Drummond é o poeta existencial por excelência, reflete, com absoluta precisão, a angústia da alma humana frente às incertezas do destino. A solidão, o silêncio, o mistério do existir, o tempo, a trajetória do homem e a busca de uma redenção para o indivíduo.

Suas obras ganharam versões em inúmeras línguas, publicadas em um sem-número de países, o que atesta a grandiosidade de Drummond, fazendo-o o poeta mais influente da literatura brasileira durante longo tempo. Além de tudo, atuo como tradutor, vertendo para o português obras de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, François Mauriac e Molière.

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus

companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes

esperanças.

Entre eles, considere a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos

afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos

dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de

uma história.

não direi suspiros ao anoitecer, a

paisagem vista na janela.

não distribuirei entorpecentes ou cartas

de suicida.

não fugirei para ilhas nem serei raptado

por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo

presente, os homens presentes,

a vida presente.

Cota Zero

Stop.

A vida parou

ou foi o automóvel?

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

CECÍLIA MEIRELES

Filha de um funcionário do Banco do Brasil e de uma professora municipal Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, na Tijuca, Rio de Janeiro. Seu pai não chegou a conhecê-la, falecendo pouco antes de seu nascimento, e sua mãe teve pouco convívio, já que morreu antes de Cecília completar três anos. Dos quatro filhos do casal, foi a única que sobreviveu, sendo criada pela avó.

Destacou-se em seus primeiros anos na escola, chegando a receber uma medalha das mãos de Olavo Bilac, então Inspetor Escolar do Rio de Janeiro. Após concluir o curso normal do Instituto de Educação, passa a exercer a profissão de professora primária.

Pouco tempo depois, logo após publicar seu primeiro livro de poesias, casa-se com o pintor português Fernando Correia Dias, com quem tem três filhas:  Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda, que lhe darão cinco netos. Após o suicídio de seu marido, casa-se mais uma vez, agora com o engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo.

Cecília atuou com jornalista, organizou a primeira biblioteca infantil da cidade, proferiu conferências sobre literatura brasileira em Portugal, além de lecionar a mesma matéria na Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ), chegando a dar aulas na Universidade do Texas. Publica vários livros no Brasil e em Portugal e é amplamente reconhecida através prêmios e honrarias.

No dia 9 de novembro de 1964, vem a falecer,  causando grande comoção e alvo de inúmeras homenagens públicas. Recebe, no ano de sua morte, o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro “Solombra”, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Cecília Meireles foi amplamente homenageada no Brasil e no exterior. Dá nome a um salão de concertos e conferências no Rio de Janeiro; é nome de rua,  de escola municipal e biblioteca em São Paulo; já foi efígie de cédula em 1989. No Chile, deu nome à biblioteca de Valparaíso; a uma rua em São Domingos de Benfica, em Lisboa; em Ponta Delgada, capital do arquipélago dos Açores, há uma avenida com o nome da escritora,  neta de açorianos.

Sua poesia, presa ao lirismo tradicional, revela fortes traços simbolistas expressando os diversos estados de espírito por que passa, de maneira vaga e quase sempre imaterial. As imagens naturais como o mar, a areia, a espuma ou a lua ganham destacado valor sugestivo, até mesmo pela repetição com que surgem. A perda amorosa e a solidão criam a atmosfera da dor existencial que explorada e intensifica quando combinada às diversas alusões ao tempo.

No aspecto mais estilístico, Cecília faz uso de uma linguagem sublimada, com pouca presença de marcas coloquiais, fazendo de sua criação poética um exercício estético tradicional. Sua inclusão em uma “geração” modernista deve-se mais ao fator cronológico que ao estético, pois coaduna pouco com as conquistas – temáticas ou formais – da geração de 22.

Talvez, seu maior ponto de contato com as propostas vanguardistas fio na revisitação crítica do passado histórico, quando publica O romanceiro da Inconfidência, um conjunto de poemas narrativos em que reconstroem liricamente a sociedade mineira do século XVIII, suas principais personagens e, evidentemente, a própria conspiração pela liberdade. Tomada como metáfora ao momento vivido pela poetisa, pode-se achar uma dimensão “estar no mundo” para sua poesia, na qual se contempla a humanidade em sua ação coletiva.

Pássaro

Aquilo que ontem cantava

já não canta.

Morreu de uma flor na boca:

não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,

e, em verdade,

tendo asas, fitava o tempo,

livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:

não foi nada.

E o dia toca em silêncio<

CADASTRE-SE

E receba em primeira-mão todas as novidades dos Vestibulares, Ofertas, Promoções e mais!