GERAÇÃO DE 45 – A POESIA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO E GEIR DE CAMPOS

O ano de 1945 é um marco na história da humanidade, pois marca o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Era Atômica, com as explosões de Hiroshima e Nagasaki. Começava então uma nova divisão de poder no mundo, uma reestruturação geopolítica, com a crença de uma paz duradoura, refletida na criação da Organização das Nações Unidas e a subsequente publicação da Declaração dos Direitos do Homem.
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Sede da Organização das Nações Unidas em Nova Iorque

Contudo, as pretensões pacificadoras esbarraram nos problemas políticos e econômicos. O mundo se viu dividido em dois blocos: o capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América e o socialista, liderado pela antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Essas duas superpotências protagonizaram a disputa de poder no cenário mundial, em um período que se convencionou chamar de Guerra Fria e que teve como símbolo o Muro de Berlim.

Era um período conturbado, de invasões, ocupações e revoluções, como a Guerra da Coreia – na qual os EUA buscavam combater os comunistas da Coreia do Norte –, ou como a revolução cubana em 1959 – que assume tempos depois o caráter comunista, estabelecendo um país de influência soviética a 140 milhas da Flórida. O mundo vivia em constante medo de uma guerra nuclear, percebendo a corrida armamentista e as relações cada vez mais belicosas entre as superpotências, como no episódio da crise dos mísseis em 1962, quando a URSS instalou mísseis nucleares em Cuba e quase levou o planeta a um holocausto nuclear.

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Eu quero

A permanente tensão vivida na política externa não se reproduziu de imediato no Brasil. O ano de 1945 marca o fim da ditadura Vargas, o início da redemocratização, a convocação de eleições gerais e a subida do General Eurico Gaspar Dutra à presidência. É curioso notar que a redemocratização deu-se de maneira parcial, já que, politicamente, Dutra representou, até certo ponto, uma continuação do modelo varguista, principalmente nos processos de repressão e censura que só foram superados após algum tempo.

A frágil democracia brasileira tem pouca duração e, na mesma direção dos golpes militares que ocorriam por toda a América Latina com a anuência dos Estados Unidos, em 1964 um golpe de estado estabelece o regime ditatorial dos militares no país. Um período de exceções, ilegalidades, perseguições, torturas, censura e exílio.

A ESTÉTICA DO PERÍODO

A AVENTURA DA LINGUAGEM

A poesia opõe-se às inovações formais do modernismo, motivo pelo qual não se pode falar em uma “terceira geração modernista”, já que esses poetas negam a liberdade formal, as ironias, as sátiras e os arroubos descompromissados modernistas. A proposta é uma poesia equilibrada e séria, distanciando-se do que eles chamaram de “primarismo desabonador” de Mário e Oswald de Andrade.

Na aventura da linguagem que propõem os experimentalismos estéticos estão balizados pelo restabelecimento de uma forma artística e bela, com revalorização de estéticas parnasianas e simbolistas. Sua independência dos modelos modernistas anteriores é publicada em manifesto na revista Orfeu em 1949, onde afirmam que “uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam, e só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela.”

VOLPI, Alfredo. Grande fachada festiva, 1950

Toda escola nova que propõe sua estética, de alguma forma cria rupturas com seus antecedentes; no caso da geração de 45 esse rompimento não é radical, mas sutil, na medida em que revaloriza o passado eterno e recoloca a palavra como instrumento maior da poesia.

Esse primeiro momento da história poética brasileira exige menos posicionamento político dos poetas, dando-lhes a opção de serem sóbrios e racionais em sua atitude poética. A renovação literária que perseguem é a renovação da própria linguagem, não reformando-a, mas afirmando os valores estéticos. Essa tendência formalizante não significou, contudo, uma restauração da estética parnasiana, visto que não se postam como neoclássicos, mas buscam o universalismo temático, o senso de medida do verso, combinando ritmo e sentido e buscando a verdadeira arte poética.

AUTORES

JOÃO CABRAL DE MELO NETO 

João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife, no dia 9 de janeiro de 1920 e viveu sua primeira infância em engenhos de sua família. Conclui seu curso secundário em Recife e frequenta o círculo intelectual da cidade. Anos depois, muda-se com a família para o Rio de Janeiro, onde algum tempo depois publica seu primeiro livro de poemas, chamado “Pedra do Sono”.

Trabalhou no DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) e, posteriormente ingressou na carreira da diplomacia e presta serviço em diversos países ao redor do mundo. Em 1969, é eleito para a Academia Brasileira de Letras onde ocupo a cadeira de número 37.

Depois de exercer o cargo cônsul-geral em Portugal, volta no final da década de 1980 ao Rio de Janeiro. Neste tempo em que passou a serviço do Itamaraty não abandonou a atividade literária, sendo laureado por inúmeras vezes a causa de suas publicações. Aposentado na década de 1990, vem a nos deixar no dia 09 de outubro de 1999, aos 79 anos.

João Cabral de Melo Neto constrói sua poética de maneira não-lírica e não-confessional, ligada à realidade e voltada à racionalidade. Pertenceu à geração de 45, mas, apesar de ser considerado seu maior representante, não pode ser enquadrado como exemplar estilístico desta geração, já que sua estética não propõe diretamente um retorno às formas tradicionais do verso, apesar de que sua construção poética guarde ênfase na palavra e seus sentidos.

Influenciado por temas da geração de 30, mergulha no sertão de maneira contundente, produzindo a epopeia de seu povo em Morte e Vida Severina. Sua linguagem cuidada, rigorosa, e seca em alguns momentos dá forma a uma poesia autorreflexiva, voltada à discussão sobre a própria linguagem e todas as suas possibilidades de expressão poética. Passeia por outros temas de cunho social sem perder o cuidado formal, a racionalidade e o equilíbrio de suas composições.

Tecendo a manhã

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito de um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão

GEIR CAMPOS

Nascido na cidade de São José do Calçado, no Espírito Santo, no dia 28 de fevereiro de 1924, Geir Campos, além de poeta, foi piloto da marinha mercante e combateu como civil na Segunda Guerra Mundial. Professor da faculdade de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, era também diretor teatral e foi um dos fundadores do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, mostrando sua intensa participação nas lutas sociais. Chegou a ser candidato a vereador por Niterói, mas acabou não se elegendo ao cargo.

Trabalhou como jornalista, contribuindo para vários jornais cariocas e fluminenses, arriscou-se no radialismo, onde ficou famoso por apresentar o programa “Poesia Viva” por mais de duas décadas na rádio MEC. Foi diretor da Biblioteca Pública Estadual de Niterói (1961-1962), transformando-a em um centro cultural. É de sua autoria, juntamente com Neusa França – que fez a música -, a letra do hino oficial de Brasília (DF).

Geir é conhecido por diversas alcunhas, como artesão da palavra ou operário do canto, por conta da forma como compunha seus poemas e por sua preocupação social. Dono de uma obra sólida, que incluem poesia, prosa, crônica, contos, literatura infanto-juvenil entre outras, Geir é um autor completo, em que se combinam forma e conteúdo de maneira primorosa. Aos 75 anos, em Niterói, no dia 8 de maio de 1999, Geir virou saudade para todos os que tinham nele um dos maiores poetas nacionais.

Sua escrita unia o rigor formal e intelectualismo, aliando a preocupação social às questões estéticas. Isso o transformou em um dos maiores sonetistas do país. Versátil, não se limitou às formas fixas e compôs também em diversos outros modelos poéticos. Guarda influências de múltiplas escolas, mas se caracteriza por uma poesia descritiva, de temática humana e reflexiva, falando sobre solidão ou solidariedade, estabelecendo reinvenção do dia cotidiano, as contradições humanas e suas questões profundas, os sentimentos, a fragmentação da realidade, o tempo, a vida e, claro, a luta diária imposta pelo mundo.

Sua poesia engajada revelava seu espírito de luta e de preocupação com a sociedade. Corajoso, passeou por visões vanguardistas sobre relacionamentos, defendendo amor livre e relações abertas. Militante cultural extremamente técnico e de produção apurada, Geir, apesar de não gozar do mesmo prestígio e fama de outros poetas, merece ser lido e apreciado, pois seu nome sempre figurará entre os grandes da arte poética.

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