MODERNISMO BRASILEIRO – A FASE HEROICA

A década de 1920 é um período particularmente agitado na história mundial e brasileira. Um mês após a realização da Semana de Arte Moderna, o Brasil escolhia o sucessor do Presidente da República, Epitácio Pessoa, em plena crise econômica e contrariando a tradicional disputa São Paulo x Minas.
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As oligarquias do café-com-leite têm candidato único, Arthur Bernardes, que venceria as eleições contra o representante das oligarquias de Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, Nilo Peçanha.

O resultado da briga política, motivada mais por interesses e vaidades pessoais que por projetos diferentes de governo, é a ampliação do descontentamento da classe média, da qual faziam parte jovens oficiais das forças armadas. Foram esses militares que tentaram impedir a posse de Bernardes exigindo mudanças imediatas. A revolta tem como palco o Forte de Copacabana e seu trágico desfecho dá-se em uma caminhada fatal em que 17 militares mais um civil vão de encontro aos três mil soldados das forças governistas e são massacrados diante da bela paisagem carioca. Os Dezoito do Forte, como ficou conhecido o movimento, entrou para a história como um sacrifício por um ideal, um símbolo de luta e resistência.

O governo de Bernardes não é em nada tranquilo: censura à imprensa, intervenções nos estados e períodos de estado de sítio são uma constante. Ainda assim, o espírito revolucionário não se cala e dois anos após os acontecimentos em Copacabana, é São Paulo o palco de nova batalha. O movimento dos tenentes exige maior representatividade política, fim da corrupção e voto secreto. Após um mês, os revoltosos retiram-se rumo ao interior, juntando-se com tropas gaúchas comandadas por Luís Carlos Prestes, na formação do que ficou conhecido como a Coluna Prestes. A marcha enfrentou tropas do exército, grupamentos regionais, jagunços e até cangaceiros de Lampião; contudo, em uma terra dominada pelo latifúndio, não foi capaz de sensibilizar a população para a tão almejada revolução.

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Eu quero

Estado-Maior da Coluna Prestes

Em 1922, ainda sob o impacto causado pela revolução bolchevique e a criação da U.R.S.S., funda-se no Brasil o Partido Comunista Brasileiro (PCB) organizando e aglutinando trabalhadores e operários, contando com vários nomes advindos das lutas anarquistas. Em 1926, o Partido Democrático surge no cenário paulistano oriundo da pequena burguesia e tendo como um de seus fundadores, Mário de Andrade.

No plano econômico, a crise de 1929 é um duro golpe contra as famílias paulistanas, especialmente os outrora ricos comerciantes de café. A queda dos números de exportação do produto – base da economia nacional – levou fazendeiros à falência e até mesmo à queima dos estoques de grão no país. O momento de fraqueza de São Paulo repercute na disputa presidencial e abre caminho para que Getúlio Vargas assuma o poder e mude radicalmente o país, deslocando o poder das oligarquias agrárias criando um novo modelo de desenvolvimento.

ORGIA INTELECTUAL: MANIFESTOS E REVISTAS

O turbilhão social, econômico e político pelo qual passava o país era retratado na arte moderna. Após a Semana de 22 coube aos artistas modernos a tarefa de anunciar que projeto estético pretendiam divulgar. Essa fase, chamada por alguns de heroica, é uma fase de afirmação, sem, contudo, ser alcançar unidade entre as diversas correntes e manifestações que surgem.

No entanto, podem-se apontar algumas características comuns aos modernistas destas diferentes linhas de atuação, como o rompimento com as estruturas do passado, numa perspectiva destruidora e anárquica; ou como na reconstrução da cultura brasileira sobre bases nacionais, definidas como uma linha construtiva.

A mistura entre o moderno e o passado também é uma constante: o olhar atual é lançado ao passado em busca de uma revisão crítica de nossa história, com a eliminação de nosso complexo subalterno, colonizado, apegados unicamente a valores estrangeiros. É a defesa da volta às origens, de uma visão nacionalista, valorizando o índio verdadeiramente brasileiro, buscando construir uma língua brasileira, próxima àquela falada nas ruas.

O humor e a ironia fazem-se presentes como elementos da modernidade, surgindo diversas paródias de textos quinhentistas, recriando a visão do país sobre si mesmo. É o tempo de propostas, manifestos, revistas e publicações que buscavam nortear a nova estética brasileira, investigando profundamente nossas raízes culturais, radicalizando conteúdos e formas para implementar definitivamente os conceitos de arte moderna e dar autonomia e maturidade à nossa literatura.

Quatro movimentos chamam a atenção e merecem destaque na época: A Poesia Pau-Brasil, a Antropofagia, o Verde-amarelismo e a Escola da Anta. Entre as revistas, destaques para as publicações Klaxon, A Revista, Estética, Terra Roxa e Outras Terras, além do manifesto regionalista de 1926.

POESIA PAU-BRASIL

 

Capa da primeira edição de Pau-Brasil, ilustrado por Tarsila do Amaral

Lançado por Oswald de Andrade em 1924, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil propunha a criação de uma poesia nacional de exportação, extremamente vinculada à realidade brasileira, redescobrindo, de forma irreverente, o próprio Brasil. A veia irônica e sarcástica também se manifesta para revoltar-se contra a dominação cultural europeia, valorizando os contrastes culturais nacionais, voltado às origens, acentuando uma poesia primitivista. Veja as características do movimento apresentadas pelo próprio Oswald, nos fragmentos do manifesto aqui reproduzidos:

“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

(…)

A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.

(…)

A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.

(…)

A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.

(…)

Só não se inventou uma máquina de fazer versos – já havia o poeta parnasiano.

(…)

A síntese

O equilíbrio

(…)

A invenção

A surpresa

Uma nova perspectiva

Uma nova escala.

(…)

Uma nova perspectiva.

Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.

OSWALD DE ANDRADE

(Correio da Manhã, 18 de março de 1924.)

Note a sistematização das rupturas: valorizar o erro da linguagem, poetizar os fatos, crítica ao formalismo parnasiano e a proposta revolucionária de expressão do mundo: ver com olhos livres. Isso significa a libertação de nossas amarras, a possibilidade de assumir tudo o que somos, abandonar os olhos do colonizador, como uma criança que vê pela primeira vez, ágil e cândida.

VERDE-AMARELISMO E ESCOLA DA ANTA

Plínio Salgado

O grupo – formado por Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo – surge como resposta à proposta Pau-Brasil de Oswald, considerada uma “nacionalismo afrancesado”. Assim, o movimento introduz a concepção de um nacionalismo primitivista, ufanista, que se identificava com o fascismo (o que se tornaria evidente após o ingresso de Plínio Salgado no movimento Integralista). O índio tupi e a anta são alçados a símbolos do nacionalismo primitivista, numa idolatria que acaba por transforma o nome do próprio movimento em Escola da Anta. Abaixo, um trecho do manifesto publicado em 1929, “Nhengaçu Verde-amarelo – Manifesto do Verde-amarelismo ou da Escola da Anta”:

“O grupo “verdamarelo”, cuja regra é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder; cuja condição é cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo, da própria determinação instintiva; o grupo “verdamarelo”, à tirania das sistematizações ideológicas, responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira. (…)

Aceitamos todas as instituições conservadoras, pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil, como o fez, através de quatro séculos, a alma da nossa gente, através de todas as expressões históricas.

Nosso nacionalismo é “verdamarelo” e tupi. (…)”

ANTROPOFAGIA

Tarsila do Amaral, Abaporu

O contra-ataque de Oswald ao primitivismo xenófobo da Anta veio com a publicação do Manifesto Antropófago, lançando o movimento mais radical da época. Nele, Oswald de Andrade, Raul Bopp e Tarsila do Amaral acentuavam um primitivismo crítico e propunham a deglutição da cultura estrangeira.

A ideia surgiu de um quadro de Tarsila, oferecido como presente de aniversário para Oswald, que rapidamente, junto com o amigo Raul Bopp, batizou-o Abaporu, que, em tupi, significa antropófago. Para veicular os novos conceitos foi criada a Revista de Antropofagia.

Os antropófagos baseavam-se na cultura indígena primitiva de que quando se devora um inimigo assimilam-se suas qualidades; desta forma, não se negava a cultura estrangeira, tampouco havia dela cópia ou imitação: a proposta era a devoração simbólica da cultura estrangeira, aproveitando as inovações artísticas sem a perda da identidade cultural brasileira. Vamos ao manifesto:

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

(…)

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

(…)

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

(…)

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

(…)

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

(…)

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE

 Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.”

(Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

DOIS ANDRADES E UM BANDEIRA…

Os principais nomes do período pós-Semana de 22 são os de Oswald de Andrade e Mário de Andrade. O primeiro por sua concepção destruidora e revolucionária, o segundo pelo estudo e aprofundamento que faz do folclore. Além desses, destaca-se, na poesia, Manuel Bandeira, desde a Semana de Arte Moderna um dos pilares de construção da nova estética.

OSWALD DE ANDRADE

Tarsila do Amaral, Retrato de Oswald de Andrade

O mais revolucionário dos modernistas brasileiros nasceu em 1890, na cidade de São Paulo. De família rica, Oswald viajou várias vezes à Europa, estando em contato com artistas das mais variadas vanguardas. Trouxe ao Brasil as ideias do Futurismo e tornou-se figura principal dos acontecimentos culturais nas décadas iniciais no Brasil. Formado em Direito, ingressou no jornalismo, mas viu na literatura o caminho para seu verdadeiro potencial.

Polêmico, gozador, irônico, crítico e debochado são algumas das qualidades que o definiram. Sua vida atribulada não se resumiu às artes: teve inúmeros casos amorosos e vários casamentos. A crise de 1929 abala-o financeiramente e em 1930 casa-se com a escritora comunista Patrícia Galvão (Pagu). Passa então a militar nos meios operários, ingressando no PCB. Esse período marca suas obras “ideológicas”: Manifesto Antropófago, Serafim Ponte Grande e O rei da vela.

O nacionalismo pregado por Oswald diferenciava-se de outros modelos. Negava a ingenuidade e o ufanismo, valorizando as origens brasileiras, seu passado histórico e sua cultura sempre de maneira crítica. Assim recupera e parodia, ironiza e atualiza a colonização, apontando as contradições entre o moderno e o primitivo que convivem no Brasil. Na linguagem, valoriza a expressão cotidiana, buscando a língua brasileira: “como falamos, como somos”, onde se incorporam os erros gramaticais como contribuição ao idioma e à definição da própria nacionalidade.

Pelo aspecto formal, sua produção é bastante inovadora: criou o “poema-pílula” (ou poema-minuto) de forte apelo visual, uma técnica de poemas curtíssimos. A quebra de relações sintáticas e lógicas também é marca do autor, que se utiliza frequentemente de imagens bruscas e fragmentações. Nos romances, essa ruptura dá-se de maneira a apresentar capítulos curtos e semi-independentes, misturando poesia e prosa, para formar um grande painel.

Brasil

O Zé Pereira chegou de caravela

E perguntou pro guarani da mata virgem

— Sois cristão?

— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte

Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!

Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!

O negro zonzo saído da fornalha

Tomou a palavra e respondeu

— Sim pela graça de Deus

Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!

E fizeram o Carnaval

Amor

humor

Erro de português

Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena! Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português

33. Veleiro

A tarde tardava, estendia-se nas cadeiras, ocultava-se no tombadilho quieto, cucava té uma escala de piano acordar o navio.

Madame Rocambola mulatava um maxixe no dancing do mar.

Esquecia-me olhando o céu e a estrela diurna que vinha me contar salgada do banho como estudara num colégio interno. Recordava-me dos noivados dormitórios de primas.

Uma tarde beijei-a na língua

66. Botafogo etc.

Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol. Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores. No outro lado da baía a serra dos Órgãos serrava. Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Rolah ia vinha derrapava entrava em túneis. Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade.

MÁRIO DE ANDRADE

Anita Malfatti, Mário de Andrade

Mário Raul de Morais Andrade nasceu na rua Aurora, São Paulo, em 1893. Estudou música no Conservatório Musical de São Paulo, mas desistiu da carreira de concertista quando suas mãos tornaram-se trêmulas devido ao trauma da perda de seu irmão de 14 anos por complicações decorrentes de uma cabeçada em um jogo de futebol.

Sob o pseudônimo de Mario Sobral publica seu primeiro livro, Há uma gota de sangue em cada poema, com apenas vinte anos de idade e influenciado ainda pelas escolas literárias anteriores, com poucas inovações formais. Ainda assim, os críticos parnasianos desagradaram-se com a obra.

Mário de Andrade é o grande teórico do Modernismo; homem de cultura, pesquisador contumaz, sustentou intelectualmente o movimento em momentos decisivos. Em Pauliceia desvairada rompe de vez com as estruturas do passado, analisando a cidade de São Paulo e sua gente: burgueses, aristocratas, proletariado, enfim, uma verdadeira colcha de retalhos, multifacetada, a quem Mário definiu como “arlequinal”. Para provar que estava livre de influências, dedica seu livro a seu Guia, ele mesmo.

Capa do livro Pauliceia desvairada

Contudo, é no prefácio desta obra que reside o manifesto teórico do Modernismo: o Prefácio Interessantíssimo. Nele, lança as bases da nova estética, fala sobre o lirismo, funda o desvairismo, defende a língua coloquial, a fluência criativa, explica métricas e cria a polifonia poética. Os brasileirismos e o folclore são de fundamental importância para o poeta, além de tecer duras críticas sociais contra a alta burguesia e contra a aristocracia.

Sereno e equilibrado, soube colher os frutos da destruição futurista, conciliando conquistas modernistas com lições do passado. Rever o passado, sem negá-lo radicalmente, fez do autor referência de crítica literária, mostrando a face construtiva do Modernismo. Empreendeu diversas viagens pelo interior do país, pesquisando e recolhendo materiais culturais: poemas, canções, ritmos, festas religiosas, lendas, objetos de arte, tornando-se assim, um dos primeiros folcloristas nacionais. Todos esses esforços eram a pr

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