SOCIOLOGIA BRASILEIRA E QUESTÃO INDÍGENA

A formação cultural no Brasil se deu basicamente por três matrizes culturais: a do negro (africano), a do europeu (predominantemente o português) e a indígena. Por cada uma delas, se pudéssemos avaliar, chegaríamos à ideia de que ainda existem as “dissidências”, ou melhor, particularidades que mereceriam ser avaliadas em seus específicos símbolos e ritos.
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Porém, se tomarmos como base cultural as três e se entendermos que através de um processo histórico todo, próprio do Brasil, de miscigenação e contato entre as três matrizes, chegaremos a um denominador comum não muito simples nem fechado: no Brasil ocorre o fenômeno do multiculturalismo. Alguns cientistas sociais e historiadores já se preocupavam com essa questão e avaliavam essa relação interétnica como “harmoniosa”, como por exemplo, Sergio Buarque de Holanda.

Em recentes pesquisas na Universidade Federal de Minas Gerais, mostrou-se que a mistura é muito maior do que indicam apenas aspectos como a cor da pele ou o tipo de cabelo. No Brasil, não há branco sem genes africanos e nem negro sem genes europeus.

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, entende que todas essas matrizes se interrelacionam  e convivem em harmonia, acomodando outras tantas práticas e diferentes símbolos sem que com isso perca o seu caráter de universalidade. Existem discordâncias sobre tal tese.

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Gilberto Freyre, sociólogo, chamava atenção em suas análises para a grande diversidade a partir de uma pré-disposição do povo português de assimilar novos símbolos trocar com eles. Esse é o multiculturalismo, visto como uma rede de significados, como um grande tecido composto por vários fios que se entrelaçam e formam a cultura brasileira, tão própria e única em formação, símbolos e construtora de uma identidade própria.

Nesse contexto é importante salientar que se constituía no Brasil uma rede de significados, códigos e nomes antes do colonizador, dizia Darcy Ribeiro.

As organizações e matrizes indígenas se davam por aspectos linguísticos, configurando uma diversidade de etnias, os chamados “Brasis”. Os povos que mais tiveram contato com os colonizadores foram os tupinambás. Os costumes antropofágicos ligados aos rituais de guerra e a espiritualidade exibiam um “Código de Ética” em relação ao inimigo.

Além disso, dentro da organização sociocultural de muitos desses povos, o temperamento alegre, festivo  e caloroso estava presente na celebração tanto de fenômenos da própria natureza quanto da organização e das relações entre os que compartilhavam dessa matriz.

Ainda em relação à diversidade étnica que compõe uma matriz, poderíamos também indicar a matriz africana. Essa ainda se deparava com um agravante: uma multiplicidade étnica, mas o reconhecimento de hierarquias de poder.

As sociedades tribais africanas e mais ainda os reinos como o do Congo, por exemplo, conheciam o poder, uma sociedade hierarquicamente organizada e a escravidão propriamente dita.

A matriz portuguesa que colaborou também na formação do povo brasileiro, embora imbuída de um sentimento etnocêntrico, também já não era mais tão genuína, visto que historicamente a contribuição de árabes (mouros) e judeus na Península Ibérica foi muito marcante para a própria cultura lusa.

O símbolo que o português garante de que é mercador, e de que tem aptidão comercial e mercantilista poderia ser atribuída a muitos desses povos (árabes, judeus) que estabeleceram contato há muito tempo com nossos compatriotas. Darcy Ribeiro, antropólogo, chama atenção para a multiplicidade e beleza da cultura brasileira que já não é mais lusa, nem indígena e muito menos africana, mas sim a de beleza de uma colcha de retalhos que faz intercalação conflituosa mas exclusiva de todas essas diversidade.

Nesse contexto, as diferenças são cada vez menos valorizadas em termos científicos, o que vai contra as análises racialistas. O sociólogo Francisco Weffort percebe que, mesmo que a nossa sociedade seja extremamente excludente em termos sociais, a partir das esferas socioeconômicas, ela é includente em alguns aspectos como, por exemplo, em relação à identidade cultural.

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Ainda assim, pensemos na questão da regionalização tão presente no Brasil e que marca diferenças muito fortes entre as regiões influenciando, inclusive, nas questões socioeconômicas de cada espaço no Brasil. Portanto, o Brasil não conta com um grande grupo cultural hegemônico que é rodeado por minorias culturais que constroem barreiras entre si, mas sim uma grande “colcha de retalhos”, como dizia Darcy Ribeiro.

Chamamos atenção para um momento histórico como o nosso, e que se levarmos em consideração os recentes estudos que anulam o conceito de Raça, essa discussão acaba perdendo sentido. Nesses estudos, através de análises genéticas, os pesquisadores chegaram à confirmação de que um negro e um branco por aparência (cor de pele ou tipo de cabelo) teriam boa parte de sua “constituição étnica” fundamentada na troca, na não predominância de quaisquer etnias.

Florestan Fernandes, também sociólogo nos anos 80, o lado de outros dois homens das ciências sociais, Otávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso, foi convidado a realizar um estudo sobre a formação do povo brasileiro, mais precisamente sobre a condição de vida da população afrodescendente no Brasil República. Chegaram à conclusão de que predominaram as relações de opressão, de hierarquia e de exploração.

Toda essa ideia questionava a percepção “harmônica” até então colocada pelos outros cientistas e “esquecia ou encobria” os conflitos até então presentes nessas relações, ainda que saibamos de nossa condição intercultural, denunciada por Florestan Fernandes em diversos trabalhos por ele elaborados, como A integração do negro na sociedade de classes.

A partir das análises já feitas por antropólogos e sociólogos acerca da formação cultural brasileira, devemos entender que as três matrizes: africana, portuguesa e indígena, por si mesmas já eram miscigenadas, ou seja, já existia pluralidade. E que o Brasil seria na América, talvez o maior representante do multiculturalismo, o que não pode desconsiderar os diversos conflitos e heranças negativas desse processo.

É importante salientar que, por mais que a adaptação e troca cultural tenham ocorrido, isso se deu e se dá deixando marcas e heranças negativas. O próprio “lugar” do negro e seus afrodescendentes, a não inserção completa pelo aspecto cor, e por tanto racial, tanto do afrodescendente quanto dos indígenas, por razões diferentes deixa o país marcado por desigualdades, e as relações sociais mais complexas.

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